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Salto no escuro

(*) Marcos Cintra
| Tempo de leitura: 3 min

A crise energética pela qual passa o Brasil tem como causa maior a falta de investimentos no setor. A crise tem muito pouco a ver com a falta de chuva. Desde meados da década de 80, técnicos da área energética vêm alertando o poder público sobre a iminência de um choque na oferta de energia no País. Agindo de modo irresponsável e inconseqüente, o governo federal seguiu justamente o caminho contrário ao que os especialistas indicavam. Nos anos 80 investiu-se no setor energético entre US$ 10 bilhões e US$ 15 bilhões ao ano, montante que caiu para cerca US$ 6 bilhões ao ano na década seguinte. Em 2000, o setor recebeu investimentos de apenas US$ 4,2 bilhões. Para ilustrar, vale citar que no ano passado os gastos com os encargos da crescente dívida mobiliária federal, fruto de erros na condução da política econômica, foram de US$ 13 bilhões. Em 1995, essa despesa foi de US$ 7,5 bilhões.

A crise gerada em razão do desleixo com que foi tratado nos últimos anos o abastecimento de energia no País irá causar prejuízos enormes a toda sociedade. Um estudo realizado pela Fundação Getúlio Vargas FGV prevê que o racionamento na demanda de energia no próximo semestre irá reduzir a oferta de empregos em 856 mil postos e a arrecadação de impostos em R$ 6,6 bilhões, sendo 1/3 desse montante representado pelo ICMS. O déficit na balança comercial, que vem caindo desde 1997, deve aumentar e fechar o ano em US$ 1,6 bilhão.

O trabalho realizado pela FGV mostra bem os estragos que o programa de racionamento poderá causar. O custo dessa crise anunciada há anos é mais um elemento a pesar sobre as empresas e o custo de vida das famílias.

O consumidor de energia residencial poderá ser apenado tanto com a sobretaxa sobre o excesso dos 200 Kwh como no corte de energia quando estourar sua cota. Para fugir dessa situação, o cidadão se vê forçado a adquirir seu kit-apagão, gerando assim mais pressão sobre seu já combalido orçamento doméstico. Ou seja, o racionamento, além de impor despesas adicionais ao consumidor, poderá cobrar mais pela energia consumida e ainda deixá-lo à luz de vela.

No comércio e na indústria, o racionamento causará impacto negativo nas vendas, principalmente de eletroeletrônicos, e pressionará os custos industriais, comprometendo a competitividade da produção nacional.

A situação é grave. O governo diz, ridiculamente, que não sabia da situação, e ainda culpa São Pedro pelo problema. A verdade é que houve negligência no gerenciamento do setor e uma obsessão das autoridades econômicas na obtenção de metas fiscais, o que limitou os investimentos na expansão da oferta de energia. A questão energética foi empurrada com a barriga. Preferiu-se dar um salto no escuro, literalmente.

(*) Marcos Cintra Cavalcanti de Albuquerque é doutor em Economia pela Universidade de Harvard - EUA, professor-titular e vice-presidente da Fundação Getúlio Vargas. É deputado federal pelo PFL/SP e presidente da Comissão de Economia, Indústria e Comércio da Câmara Federal. Home-page: www.marcoscintra.org - e-mail: mcintra@marcoscintra.org.

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