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A crise de energia e os juros

(*) Antonio Delfim Netto
| Tempo de leitura: 3 min

A recente elevação da taxa de juros, a taxa Selic, para 16,75% ao ano foi uma imprudência do Banco Central e revela uma preocupante descoordenação na área financeira do governo. O nível em que ela se encontrava já era elevado. Acresce que o momento foi o mais inadequado e as razões alegadas são plenamente descartáveis. Por quê?

Porque se eleva a taxa de juros para controlar a demanda global e, com isso, reduzir a taxa de inflação. Ora, nós vivemos um momento em que não há nenhum excesso de demanda. As pressões sobre a taxa de inflação vêm de choques de oferta, como a falta de alimentos no primeiro trimestre e o aumento das tarifas de energia. Os choques de oferta produzem aumentos transitórios da inflação e são muito pouco controláveis através da elevação da taxa de juros. Um outro fator que não poderia ter sido ignorado é que estamos iniciando um racionamento de energia que, evidentemente, vai produzir uma queda da oferta e da demanda globais. Uma explicação canhestra para essa verdadeira overdose é que o mercado já antecipava a alta... É lamentável que o mercado seja reverenciado como uma espécie de divindade capaz de dar instruções ao Banco Central...

A população tem dado exemplos de que compreende melhor a situação que atravessamos do que nossas autoridades financeiras. É um fato sociológico importante o grau de adesão da sociedade ao racionamento. Estamos vendo as pessoas de todas as classes sociais desligando a aparelhagem doméstica, reduzindo a utilização dos equipamentos que utilizam a eletricidade, poupando energia. O racionamento ainda nem começou oficialmente e já se observa uma redução de 8% ou 10% do consumo nas grandes cidades. Este pode ser o lado bom dessa crise, pois demonstra que existe um sentimento patriótico que parecia adormecido mas que está bem vivo, como aliás ficou evidente quando o Canadá, numa atitude impensada, suspendeu a importação de carne bovina do Brasil.

Pesquisa recente mostrou que 75% da população atribuem ao governo a responsabilidade pela crise energética, mas nem por isso vai deixar de colaborar, sacrificando o seu consumo e o bem-estar. Mas vamos precisar de doses extras de estoicismo para suportar as conseqüências do racionamento: demanda em queda, investimentos adiados, menor oferta de empregos e até mesmo cortes de pessoal na indústria e no comércio. Nesta última semana, em São Paulo, as lojas de eletrodomésticos praticamente não venderam aparelhos que exigem o uso de energia. Nenhum daqueles forninhos elétricos que tanto ajudam na tarefa das donas de casa saiu das prateleiras.

É certo que o consumo vai cair ainda mais, forçado pelo tarifaço e pela obrigação de atingir a meta de 20% de redução do gasto de energia. Quando ainda não se tem idéia da dimensão das quedas de demanda e oferta e de quanto elas vão reduzir o crescimento do PIB, é preciso que o comando financeiro do governo tenha muito cuidado. Nessas circunstâncias, a recente overdose de juros do Banco Central foi desnecessária e pode tornar a crise ainda mais dramática.

(*) Antonio Delfim Netto é deputado federal pelo PPB-SP, professor emérito da USPE-mail: dep.delfimnetto@camara.gov.br

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