A mais importante das metas internacionais referentes ao desenvolvimento, constantes em acordos assinados pelos governos do mundo, é a de reduzir à metade, antes de 2015, a proporção das pessoas que vivem na pobreza extrema. O modo principal pelo qual a Organização Mundial do Comércio (OMC) pode contribuir para o êxito desse objetivo é realizar, ainda neste ano, uma nova rodada de negociações multilaterais para liberalizar o comércio. O sistema comercial multilateral provavelmente fez mais para melhorar os níveis de vida e tirar as pessoas da pobreza nos últimos 50 anos do que qualquer outra intervenção governamental.
O aumento em 17 vezes do comércio mundial, desde 1950, caminha de mãos dadas com um aumento de seis vezes na produção mundial em seu conjunto. Isso beneficia tanto os países desenvolvidos quanto as nações em desenvolvimento. Nos dois casos, os níveis de vida aumentaram em três vezes, enquanto a expectativa de vida nos países em desenvolvimento saltou de 41 para 62 anos, a mortalidade infantil caiu para menos da metade e a taxa de alfabetização entre os adultos subiu de 40% para 70%. Todos os países que tiveram resultados espetaculares no último meio século, como Japão, Coréia do Sul, Taiwan e Cingapura, deram ênfase ao comércio. Um estudo especial sobre comércio e pobreza da secretaria da OMC, divulgado no ano passado, confirmou que, embora, em geral, os níveis de vida dos países em desenvolvimento não estejam alcançando os existentes nas nações desenvolvidas, aqueles que estão mais abertos para o comércio convergem mais rapidamente com estas últimas. A mensagem é clara: liberalizar o comércio fomenta o crescimento econômico e, dessa maneira, ajuda a aliviar a pobreza. Os governos dos países em desenvolvimento estão reconhecendo esse fato de forma crescente, e suas políticas econômicas mudaram muito desde meados dos anos 80.
A chave em matéria de política comercial foi a liberalização.
Não é politicamente correto, nestes dias, dizê-lo, mas todos necessitam que as economias dos Estados Unidos, Japão e União Européia cresçam para poderem tanto importar quanto exportar. Uma redução na marcha dessas economias não apenas dá ânimo a sentimentos protecionistas onde menos necessitamos e enfraquece a posição daqueles que buscam aumentar seu PIB, como também tem um impacto imediato sobre as exportações dos países em desenvolvimento. Seria demais dizer que nem a OMC por si só e nem o comércio sozinho são suficientes para bloquear a pobreza nos LDC. Para dar um exemplo extremo, uma nova rodada da OMC pouco poderá fazer em favor da República Democrática do Congo enquanto esse país continuar sendo afetado pela guerra. Tampouco poderá a população em geral gozar dos benefícios do comércio enquanto seus governos gastarem os fundos em armas ou os depositarem em distantes contas bancárias. Mesmo assim, devemos insistir na necessidade de liberalizar o comércio, na esperança de que os países solucionem seus outros problemas e, assim, possam estar em condições de colher os benefícios do comércio. Porque acreditamos que o comércio pode ajudar a promover a paz, a estabilidade e o bom governo.
Depois de tudo, quando as pessoas ficam mais ricas através do intercâmbio de bens com os demais, têm menos tendência a lutar com os outros ou colocar em perigo o seu comércio. E, quando os governos aderirem às regras da OMC que prescrevem transparência e previsibilidade, haverá menos campo para a corrupção.
(*) O autor, Mike Moore, é diretor geral da Organização Mundial do Comércio - OMC.