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Para excluídos, chuveiro e TV são luxos

Daniela Bochembuzo
| Tempo de leitura: 3 min

Sem acesso a bens e serviços, excluídos não têm dinheiro para comprar carne bovina ou se locomover de ônibus

Diariamente, o aposentado Afonso Justino de Souza, 70 anos, apela para a engenharia para conseguir tomar banho. Com rapidez, liga o registro de água e corre para conectar a mangueira à torneira da pia, cujo cano levará água ao seu chuveiro. O aparelho, que há vários meses está com a resistência quebrada, é a única forma que o morador do Ferradura Mirim encontra para fazer sua higiene corporal. Se não fosse assim, teria que tomar banho de tina dágua, conta Afonso, levantando um banner de propaganda de cerveja que faz as vezes de boxe de banheiro.

Assim como o aposentado, milhares de moradores em Bauru fazem uso da criatividade para ter acesso a pequenos luxos. Recebendo, em média, R$ 180,00 por mês, é dessa maneira que famílias de excluídos enxergam a televisão, o rádio e o fogão, equipamentos imaginados, por grande parcela da opinião pública, como comuns a toda família brasileira.

Em Bauru, a Secretaria Municipal do Bem-Estar Social (Sebes) estima em 80 mil o número de pessoas que estão na linha da pobreza ou abaixo dela. De acordo com levantamentos do órgão, o grupo de excluídos recebe cerca de um salário mínimo por mês e não tem acesso a bens, serviços, atividades esportivas e de lazer, emprego e qualificação profissional.

Esse é o caso da vizinha de Afonso, Maria Madalena Cunha Claros, 80 anos. Nascida em Garça e residente no Ferradura Mirim desde outubro do ano passado, dona Maria não recebe aposentadoria e sobrevive graças ao salário do caçula, que é mecânico. O serviço, conseguido recentemente pelo filho, garantiu a compra de um chuveiro, aquisição que a moradora comemora até hoje.

Se o filho continuar no emprego, dona Maria acredita ser possível melhorar o teto de seu barraco, cujas tábuas não são suficientes para suportar a força da chuva, e comprar uma televisão. Gosto do Sílvio Santos, avisa a moradora, que há tempos recebe notícias do mundo apenas pelo rádio.

Residente no Jardim Nicéia, a dona de casa Maria José Cândido, 57 anos, também sonha em rever Sílvio Santos na televisão, quebrada há um ano. Ele é divertido, define a moradora, que não tem ferro elétrico, batedeira e liquidificador.

Mas o que preocupada Maria José não é a ausência de eletrodomésticos, mas a falta de dinheiro para comprar comida. Vítima de derrame, ela vive sob a tutela do marido, cuja aposentadoria é suficiente apenas para pagamento das contas de luz e água e compra de alguns medicamentos. Quando podem, meus filhos trazem arroz e feijão. É difícil ter mistura, carne faz muito tempo que não como, conta a dona de casa.

Mãe de quatro filhos, Dirce Domingues Aguiar, 34 anos, não se lembra da última vez que a família comeu carne bovina. O alimento é artigo de luxo em sua casa, que é mantida pelos bicos conseguidos pelo marido. Quando sobra um dinheirinho, vamos ao supermercado e compramos um curanchim, conta, perante o estranhamento da reportagem.

Curanchim é a parte do frango que tem mais osso que carne. Só temos dinheiro para comprar isso ou arroz, diz Dirce, entre risadas. Sorridente, mesmo, fica quando lembra do carro vendido pelo marido. O veículo é o único bem de consumo que gostaria de ter. Já tenho geladeira e fogão, tá bom demais. A televisão mandamos as crianças quebrarem, conta a dona de casa, convertida evangélica há um ano.

Para Dirce, a televisão não faz falta e só traz lembranças ruins. Antes, era uma briga para ver quem ficava na frente da TV. Agora, as crianças estão mais tranqüilas, garante a moradora do Ferradura Mirim, que tem fé na melhoria de vida da famílias, apesar dos dois filhos mais velhos, com 14 e 12 anos, terem abandonado a escola para catar papel na rua.

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