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Mulheres motoristas de caminhão

André Tomazela
| Tempo de leitura: 5 min

Ao contrário do que muita gente pensa por aí, as mulheres não foram feitas para pilotar fogão. Prova disso é que muitas estão sendo aceitas como funcionárias de empresas de transportes. Como motoristas de caminhão

Valéria é uma das personagens dessa nossa história que pretende mostrar a vida de mulheres que trabalham pilotando caminhão, veículo pesado que é considerado serviço típico de homem. Como é que elas fazem quando fura um pneu? diria um leitor aqui e outro acolá. Bem, isso não é problema, pois no meio dos motoristas de caminhão há muita união e eles, com certeza, estão sempre dispostos a socorrer as companheiras. Mas na maior parte das vezes o que ocorre mesmo é a troca feita pela própria motorista. Isso porque o serviço de carregar, descarregar, mesmo sendo cargas consideradas leves, cria uma boa musculatura nessas companheiras que comumente são identificadas pelo senso comum como o sexo frágil. Mas é bom não acreditar piamente em frases feitas. Elas sempre trazem algum preconceito ou idéia pre-estabelecida que esconde o que nos revela a realidade ou algum recorte dela.

Sou freteira.

Vamos à começar com o recorte da realidade de Valéria. Ela tem um caminhão GMC 7.110 (três quartos) como negócio próprio que pretende terminar de pagar exercendo a função que herdou do pai e da mãe: freteira. Está um pouquinho no sangue. Eu tenho pai e mãe que são carreteiros. Eu adoro isso. Eu adoro a estrada, afirma Valéria Aparecida Gonçalves de Andrade. Ela começou trabalhando com transporte de pessoas, motivo pelo qual possuia uma van e um ônibus. Como não conseguiu legalizar os veículos para a função, Valéria desistiu e resolveu partir para o caminhão.

Valéria, que é casada e tem dois filhos, resolveu, mesmo com o estranhamento inicial do marido, comprar o seu próprio caminhão. Eu me dediquei inteiramente aos meus filhos durante a infância. Agora que eles já são adolescentes eu contratei uma pessoa que cuida deles direitinho e resolvi seguir o que gosto com o apoio do meu marido, comenta.

Essa história de trabalhar na estrada já ocupou cinco anos da vida de Valéria, mas ela só adquiriu mesmo o caminhão faz seis meses. No começo, revela Valéria, foi muito difícil porque ela ainda enfrentava muito preconceito. Antes de comprar o veículo, Valéria tentou trabalhar numa empresa de transporte. Eu participei da seleção com mais quatro motoristas homens e fui a escolhida pela empresa, conta. Mas quando a motorista foi pegar a verba para fazer a primeira viagem foi avisada que um dos donos da referida empresa não queria ter mulher no quadro de funcionários. Eu fiquei decepcionada por não entender porque eles me deixaram participar da seleção, comenta.

O dono da empresa alegou, na época, como motivo da dispensa o fato de mulher não saber o que fazer no caso de o veículo quebrar. Isso pode acontecer também com o homem, e outra: eu troco o pneu se precisar. Se eu não conseguir, eu peço ajuda. Eu acho que não é nenhum problema, afirma.

Valéria ficou tão decepcionada que resolveu comprar o seu próprio caminhão. Eu tinha uma reserva, dei de entrada e fiz dívida que estou pagando com o meu serviço, conta.

A primeira empresa que abriu as portas, contratando os serviços de Valéria como freteira, foi uma empresa de carnes. Como freteira, eu tinha que todo dia correr atrás de serviço porque eu não ia ser fixada pela empresa. Então, um dia eu tenho serviço e outro não. Isso é difícil porque não garante a minha prestação no fim do mês, comenta.

Valéria está, no momento, realizando um socorro para um distribuidor de iogurtes, que gostou muito do serviço da freteira, razão pela qual o mesmo está tentando arranjar uma vaga para ela na empresa. É tudo o que eu queria. Trabalhando numa empresa, mesmo que você tire um pouco menos, o salário é certo e dá para programar os seus gastos de maneira correta, comenta.

Valéria não impõe limites para as distâncias na estrada. Até agora, o local mais distante que para onde viajou foi Florianópolis. Fiz muito São Paulo, muita praia e Baixada Santista, Caraguá, além da toda a região próxima a Bauru, afirma. Já o dia-a-dia da profissão varia dependendo da empresa. Segundo Valéria, na maioria das vezes carrega-se o caminhão à noite e viaja-se no dia seguinte, para fazer as entregas nos locais durante o dia. Quando o caminhão chega ao local depois do expediente, constuma-se dormir na estrada ou em frente da empresa para fazer a entrega no dia seguinte. Para ajudar nas entregas, o comum é levar um ajudante. Quando a carga é leve como as cargas de iogurte, eu mesmo posso fazer sozinha, conta Valéria.

Preconceito

Quando Valéria chega nos lugares pilotando seu caminhão, sente olhares desconfiados das pessoas. Eu acho que é por ser uma mulher. Mas há também os que elogiam, comenta. As mulheres, segundo conta, são as que mais acham um absurdo uma mulher fazendo isso. Elas logo acham que a mulher não presta ou algo desse tipo. Mas eu não ligo para esses comentários. Eu não vou deixar o preconceito me derrubar, comenta. E ninguém vai derrubar mesmo, porque Valéria não se contenta com o caminhão três quartos que possui. Ela quer mesmo é ter uma carreta. Eu estou começando agora, mas eu não quero ficar pequenininha, afirma.

A cara de Valéria no caminhão

Alguns acessórios e outros itens dão a cara de Valéria para o seu GMC, equipado na Roda Livre. O PX funciona para ela se comunicar ou pedir socorro aos colegas em caso do caminhão quebrar. Já o CD player instalado tem a função de ocupar os ouvidos de Valéria com boa música, principalmente durante à noite. Eu gosto de música sertaneja, de MPB, de tudo um pouquinho. Eu só não consigo ouvir os funks que estão na moda, comenta.

Ao entrar na cabine dá para perceber a diferença. Esqueça aquele cheiro característico de um caminhão pilotado por homem e coloque uma fragrância sutil e agradável, proporcionada pelo famoso cheirinho. Ah! Eu coloquei uns enfeites para deixar ele mais bonitinho!

Mais histórias

Na próxima edição, dando continuidade à matéria, confira a história de vida de Dalete e Cássia, que dirigem caminhões três quartos para uma empresa de transporte, que por contratar mulheres como frotistas, podem ser considerada vanguarda em Bauru.

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