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Humor nas trevas

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 3 min

Amigo meu comprou um apartamento para renda, cansado de ver seu dinheirinho ganho com tanto suor virar pó na Poupança. Coisa modesta - corredor, fogareiro e penico. Num desses edifícios com nome de passarinho. Do tamanho da cagadinha do avoante. Manteve o imóvel fechado desde a entrega enquanto realizava obras na tentativa de torná-lo habitável. Anteontem, quando inspecionava o apê ficou sabendo pela correspondência da CPFL da meta de economia de 20% que terá de fazer. Acontece que sua média é igual a zero. Teme que o futuro inquilino não possa cumpri-la e pede que alguém indique a solução para esse problema matemático, já que se sente completamente no escuro. Recomendei-lhe o 0800. Desistiu depois de 36 tentativas. Quem sabe indo a Campinas, onde a Força e Luz centralizou seus escritórios - sugeri. Nem pensar. O carro está na oficina desde que caiu naquele buraco da Av. Nossa Senhora de Fátima. Lembrei-me do Braz Mellero, nosso secretário municipal do Apagão, aposentado da CPFL. Ficou de procurar.

Nem bem larguei o amigo e já preocupado com o meu próprio limite, no pára-choque de um Scania, bem na minha frente, encontrei a estratégia infalível para economizar luz: Durma cedo, acorde tarde e trabalhe menos. Um primor de lógica aristotélica. Igual à do cidadão que deu de visitar velhos amigos para assistir às novelas por lá. Na base do humor, o brasileiro vai enfrentando a crise, ainda mais agora que roupa suja não se lava mais em casa. Depois que o Itamar revogou o apagão em Minas, a falta de energia elétrica deixou de ser problema de falta de chuvas suficientes para encher as represas. Agora é um problema jurídico que enche o saco. Declarada a inconstitucionalidade das Medidas Provisórias que impõem sobretarifas e cortes para os perdulários, a questão estará definitivamente resolvida. Itamar poderá declarar a independência de Minas Gerais com base na sentença do Supremo Tribunal Federal. Tutu de feijão, couve e torresmo só para eles. Se bem que em matéria de Supremo, o bom ainda é o de frango. Como diz o Millôr, os juízes acreditam que estão sentados à mão direita de Deus. Bem pagos, naturalmente. Faz lembrar a frase latina com a qual o doutor Macedo finalizou sua sentença num caso de repercussão em Bauru: Res ipa locuta. Ninguém sabia a tradução e o Ferrari, um escrivão muito competente que não deixava passar nada em branco, resolveu perguntar a tradução. Meu caro Ferrari - respondeu o dr. Macedo com as mãos entrelaçadas na barriga - a tradução literal mesmo eu não sei, mas é alguma coisa parecida com falou, tá falado.

Em Belo Horizonte, um gozador separatista dizia no serpentário da Savassi que aqui em São Paulo a gente pode se utilizar de chuveiro elétrico à vontade, desde que esteja desligado. Informa que o Itamar toma Viagra para ficar mais aceso. Ainda outro dia o Célio Gonçalves me mostrava na Secretaria da Cultura, coleções da Folha do Povo de 1938 onde a CPFL publicava uma série de anúncios para estimular o consumo de energia. Um bonequinho especialmente criado, o Sr. Kilowatt, pregava as vantagens do ferro elétrico: as roupas ficam impecáveis, duram mais e suas mãos não se desdoiram. Lindo. Pena que eu não havia nem nascido naquela época. A CPFL recomendava manter as luzes acesas como uma forma de proteger a saúde dos olhos dos consumidores. E ainda sentenciava: Livre-se das impurezas. Chuveiro elétrico é o máximo em higiene pessoal. Hoje nós lutamos é para nos livrar de políticos corruptos e incompetentes. Quem sabe na próxima eleição a gente aprende.

N.R. - Em casa o portão automático virou manual. Agora só falta desligar o ladrão porque o alarme já foi desativado.

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