Um dia destes, tive uma agradável sensação, misto de encantamento e nostalgia que, se de um lado me deixou comovido, de outro, encheu-me o coração de saudade, de uma saudade, a um tempo, vigorosa e doce. Ia encontrar-me com minha esposa que terminava uma aula de pintura quando ouvi umas vozes doces e suaves que cantavam lentamente como que saboreando quase avidamente cada palavra:
Nesta rua, nesta rua tem um bosque, que se chama, que se chama solidão. Dentro dele, dentro dele mora um anjo, que roubou, que roubou meu coração... Parei o carro e fiquei ouvindo, eram meninos e meninas que, acreditem, brincavam de roda. Continuei ouvindo. Outras canções vieram: Ciranda, cirandinha vamos todos cirandar, vamos dar a meia-volta, volta e meia vamos dar. O anel que tu me deste era vidro e se quebrou, o amor que tu me tinhas era pouco e se acabou... Eu ficaria ali ouvindo, meditando, recordando o tempo todo se não tivesse uma tarefa conjugal muito séria a cumprir. Deixar a esposa esperando um tempo enorme seria, a um tempo, injusto e indelicado. Pus o carro em movimento pensando sobre o tempo em que eu, também, junto a meninos e meninas, vizinhos, amigos, na escola ou na rua tranqüila em que residíamos, brincávamos despreocupados, sem conhecimento de violência de qualquer espécie, sem conhecimento de drogas, de medo, levávamos a nossa vidinha cujas únicas preocupações eram estudar, brincar e dormir. Aliás, a nossa única fonte de angústia era a surpresa que o boletim poderia trazer: nota baixa.
E lá fui eu, recordando os versos de Casemiro de Abreu: Ó que saudades que tenho da aurora da minha vida, da minha infância querida, que os anos não trazem mais. É uma pena que os meninos e meninas não possam, hoje, brincar de roda, cantar despreocupados, não possam brincar de amarelinha ou carniça, não possam, sequer, brincar de esconde, esconde. Que pena! (José Benedicto Pinto - RG: 4.440.349)