Na medida em que a mudança tecnológica e a globalização vão se acelerando, antecipar o futuro e preparar opções políticas está se convertendo na essência da liderança democrática. Por exemplo, o presidente Fernando Henrique Cardoso divulgou recentemente sua visão do que deveria ser o Brasil do século XXI. E uma conferência internacional sobre nosso futuro global foi inaugurada na Universidade Tamkang, de Taiwan, com o apoio do presidente Chen Shui Bian. Estes novos dirigentes democráticos estão envolvidos de perto em todos os assuntos vinculados com a mudança tecnológica: a reestruturação da velha economia para convertê-la na nova economia, os conflitos sobre as fontes de energia, o clima e a contaminação ambiental, o abismo da pobreza, os postos de trabalho e as pautas para a proteção do consumidor.
As pesquisas sobre os futuros possíveis, o planejamento e as previsões estão saindo das salas secretas onde são elaborados os planos estratégicos das empresas e sendo discutidos em conferências públicas sobre o futuro de toda a família humana em nosso Planeta interdependente. Na República Checa, continua a disputa com a vizinha Áustria sobre a usina nuclear de Temelin. Colocada em atividade em outubro último, esta usina, projetada pelos soviéticos, está mais perto de Viena do que de Praga. Em meio a protestos por parte daqueles que defendem uma nova economia com energia limpa e renovável, tanto do lado checo quanto do lado austríaco da fronteira, a Áustria ainda insiste em bloquear a inclusão da República Checa como membro da União Européia caso não feche esta usina.
Tanto a República Checa quanto Taiwan têm acesso a muitas alternativas ecológicas renováveis para atender suas futuras necessidades energéticas, sem riscos de energia de origem nuclear e sem os altos custos de armazenagem do lixo radioativo. Mas, ali, como na Europa, Estados Unidos, Brasil, nos países da Opep e todas as nações produtoras e consumidoras de energia, as guerras energéticas, como o clima do Planeta, estão esquentando.
Os setores da velha economia - os dos combustíveis fósseis, nuclear, químico, da construção e outras indústrias pesadas - ainda controlam os políticos e os legisladores através de suas associações comerciais, de campanhas publicitárias, da propriedade dos meios de comunicação e de sua influência por meio de lobby e das contribuições para as campanhas eleitorais. Os embrionários setores da energia renovável, a informação e a tecnologia verde da nova economia ainda não têm essa poderosa musculatura política e econômica.
Mais crucial ainda será o controle dos meios por parte dessas profundas forças que reestruturam as sociedades através da globalização tecnológica e da interdependência econômica. O debate nova economia x velha economia é um aspecto dessas profundas forças que agora estão mudando a base industrial de nossas sociedades e levando-as da tradicional utilização da terra, dos materiais e da energia fóssil a um conhecimento mais profundo dos processos planetários e biológicos, a uma maior eficiência no uso dos recursos, à reciclagem, à energia renovável e à revolução da informação e das comunicações.
Na medida em que os meios de comunicação de massa vejam com uma nova ótica os acontecimentos, as reestruturações econômicas e empresariais, os desastres naturais e os debates sobre a globalização, e informem conseqüentemente sobre eles, poderemos chegar a nos vermos nesses amplos contextos. Então, poderemos reconhecer as opções a longo prazo, as eleições e as oportunidades que estão em nosso futuro. As investigações sobre o futuro chegarão a ser uma parte vital da política cotidiana e uma antecipação da democracia. (IPS)
(*) Hazel Henderson é economista especializada em questões referentes ao desenvolvimento sustentável e ao futuro econômico do Planeta e autora de vários livros sobre o assunto.