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Hip-hop e grafite recuperam viciados

Josefa Cunha
| Tempo de leitura: 4 min

Comunidade União e Amor exige disciplina, mas incentiva os recuperandos a traçarem seus sonhos e horizontes

É com a música e a arte das ruas que a Comunidade União e Amor (Comuna) de Bauru está inovando o tratamento que oferece aos adolescentes que lutam contra o vício das drogas. A entidade, fundada há quase 10 anos, enxergou nos movimentos hip-hop e grafite uma possibilidade a mais de melhorar o índice de recuperação de seus internos, hoje na faixa dos 35%.

Josival Furtado de Souza, um dos fundadores da Comuna, explica que a filosofia de trabalho adotada pela entidade não segue o padrão da maioria das casas que prestam atendimento a menores drogados e infratores. Ele explica que a comunidade exige a disciplina, mas defende, sobretudo, a liberdade, incentivando os internos a criarem seus próprios horizontes, a traçarem seus sonhos. A perspectiva de uma vida melhor é fundamental na recuperação, razão pela qual não adotamos a política da linha dura. Fazemos todo o possível para que eles não se sintam dentro de uma prisão, mas inseridos em grupo que vislumbra o futuro. Nós, por sinal, não forçamos a permanência de ninguém aqui, exceto quando há uma determinação judicial para isso. O índice de fugas é pequeno, se chegar a uma por mês, disse Souza.

A inclusão do hip-hop e do grafite no cotidiano dos internos, acrescentou o coordenador da comunidade, veio para aprimorar as ações já baseadas no princípio da conscientização. A iniciativa foi proposta pela assistente social da entidade, que pôs em prática um projeto da época da faculdade. O hip-hop descreve a realidade vivenciada pelos adolescentes da periferia e propicia reflexões mais profundas sobre a política, preconceito e injustiça social.

Uma vez por semana, os internos têm quatro horas de aulas práticas e teóricas sobre o movimento, as quais, por sinal, já vêm mostrando resultados. Alguns estão compondo suas próprias músicas. São letras que falam sobre histórias de vida pessoal ou que evidenciam idéias de fé e libertação. É muito gratificante ver esses meninos revelando expectativas de um futuro melhor e desenvolvendo o senso crítico desprendido de revoltas. Eles se identificam de uma forma muito peculiar e isso é ótimo em termos de cura, comemora Souza.

No rastro do hip-hop, o grafite chegou à Comuna na semana passada com a pretensão de colher tantos ou mais bons frutos. Nas aulas, os adolescentes vão ver que as paredes e muros servem muito mais à arte do que a pichações inconseqüentes. Da mesma forma que as letras das músicas, eles aprenderão que o desenho também é uma forma de conscientização, de expressão e crítica social. Vale registrar que a inclusão de atividades artísticas e culturais para a busca do despertar da consciência e novas alternativas de vida é um método aprovado pelo Conselho de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente.

O grande interesse que os internos demonstraram pelas novas atividades desenvolvidas dentro da Comuna dá sinais de que o índice de recuperação pode melhorar. Apesar de todo o esforço empenhado, apenas 35% dos assistidos pela comunidade conseguem realmente superar o vício ou dar um basta às ações ilícitas. O percentual, no entanto, é positivo na opinião de Souza, para quem os números são bons se levada em conta a natureza da clientela.

A grande maioria dos nossos internos veio da rua ou de lares desestruturados. Os mais problemáticos, com reincidência na prática de atos infracionais, são os inconformados com a situação que vivem. São revoltados por não terem bicicleta, roupas e o conforto que outros têm. A maioria, porém, acha normal a vida que leva. Pedir esmola, dormir na rua, beber ou usar drogas são coisas que acompanharam esses adolescentes desde a infância, através dos pais, o que torna tudo muito natural. É por isso que o nosso trabalho se concentra na proposta de um novo estilo de vida. O mais difícil, por incrível que possa parecer, é conscientizar os pais deles, observou.

Desde que foi fundada, em outubro de 1991, a Comuna já recebeu mais de 1.000 adolescentes com idades entre 12 e 18 anos. Entre 1992 e 1999, a média era de 70 internos por ano. De lá para cá, no entanto, o número de assistidos ultrapassou a casa dos 100. Cada um deles fica internado por um período de um a um ano e meio, tempo mínimo para a superação do vício e reinserção na sociedade.

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