Há dois anos, a Secretaria Municipal de Agricultura busca parceiros para um projeto que visa reduzir o desperdício de alimentos e nutrir a população que não tem condições de adquirir os gêneros básicos
Uma proposta da Secretaria Municipal de Agricultura e Abastecimento (Sagra), em negociação há dois anos, vem buscando parcerias para combater o desperdício de alimentos em Bauru. Além do poder público, representado pela Sagra e Secretaria Municipal do Bem-Estar Social (Sebes), o programa prevê a participação da Fundação Lions, da Universidade do Sagrado Coração e do Instituto Penal Agrícola (IPA). No momento, USC e Lions analisam os termos do projeto.
Batizado de Alimenta Bauru, o programa foi idealizado a partir de dados que confirmam a perda de alimentos no município e indicam a possibilidade de reaproveitamento. Segundo Domingos Antonio Malandrino, diretor de Agricultura da Sagra e mentor do projeto, quase 90% dos produtos alimentícios rejeitados pelos supermercados, entre hortifrútis e industrializados, seriam passíveis de reaproveitamento. Uma boa parte das verduras, legumes e frutas que são retiradas da área de venda ainda é apropriada para o consumo humano. Os supermercados dispensam esses produtos porque o cliente exige qualidade total, mas uma folha estragada ou uma ponta de legume amassado não impedem que suas partes boas sejam consumidas. Quanto aos industrializados (ele faz referência aos frios e embutidos), os supermercadistas fazem substituições por conta dos prazos de validade, mas nem sempre um produto com data prestes a vencer está impróprio para o consumo. Às vezes, eles são tirados do setor de vendas simplesmente porque estão com as embalagens violadas, expôs Malandrino.
O Alimenta Bauru objetiva a prática do conceito de segurança alimentar e nutricional, na medida em que visa reduzir o desperdício no perverso cenário da fome - este princípio surgiu em 1953, na Europa pós Segunda Guerra, e passou a ser aplicado pela Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO). A proposta central é redirecionar os excedentes e sobras de produção que estejam em perfeitas condições de consumo à mesa para aqueles que não podem adquirir os gêneros necessários à boa nutrição.
Na prática, o projeto se viabilizaria com a criação de uma central de reaproveitamento, obviamente a partir do compromisso de as empresas do ramo alimentício doarem os produtos passíveis de descarte. A central funcionaria nas dependências do IPA, utilizando-se, inclusive, da mão-de-obra dos próprios semi-internos, que seriam devidamente treinados para o trabalho de seleção.
Manipulados um a um, os alimentos seriam semi-processados (retirada das partes impróprias para consumo, fatiamento, higienização e acondicionamento). Já os alimentos industrializados dependeriam de um tratamento mais específico. É nesse ponto que entra a participação da USC, que forneceria corpo técnico para análises microbiológicas, ou seja, avaliação das condições de consumo.
As doações são imprescindíveis para a concretização do Alimenta Bauru. Elas poderiam vir das centrais de abastecimento, supermercados, atacadistas, hotéis, restaurantes, lanchonetes, clubes, cozinhas industriais, padarias, bufês, indústrias de alimentação, cerealistas, produtores rurais e qualquer pessoa que disposta a oferecer gêneros alimentícios excedentes, que vão dos hortifrútis às carnes, passando pelos laticínios e massas. Visamos aqueles produtos parcialmente danificados ou que, pela aparência pouco convidativa, não foram comercializados, os que estão com o prazo de validade prestes a vencer ou, ainda, aqueles com embalagens violadas. O programa também aceitará alimentos pré-preparados, como legumes picados que não foram utilizados em restaurantes, por exemplo. Utensílios de cozinha, equipamentos e produtos de higiene e limpeza serão igualmente bem-vindos, listou.
Aparentemente, a questão das doações parece ser a mais fácil de ser acertada, mas, na verdade, não o é. O fato de entregar alimentos em condições duvidosas de consumo assusta os potenciais colaboradores, razão pela qual se faria necessária a criação de um dispositivo legal para regulamentar a prática. Por questões óbvias, as empresas temem processos e reclamações. Por isso, Bauru precisaria de uma lei que isentasse as empresas do ramo industrial de responsabilidades posteriores às doações, disse o diretor de Agricultura, ressalvando, porém, que a implementação do projeto independe do aval da Câmara.
Vale destacar que todos os alimentos processados pela central de reaproveitamento seriam destinados graciosamente às entidades assistenciais do município, mediante, é claro, cadastramento e necessidade de demanda comprovada.
O papel de cada parceiro
Secretaria Municipal de Agricultura e Abastecimento
Produzir alimentos em hortas municipaisCeder um motorista e um ajudante para a coleta de alimentosAbastecer e manter em perfeito funcionamento o veículo responsável pela coletaDivulgar o programa e seus respectivos resultados mensalmenteCeder certificado de participação a estagiários e voluntários
Secretaria Municipal do Bem-Estar Social
Cadastrar as entidades Avaliar e autorizar o volume de alimentos solicitadosAcompanhar a utilização e destino dos alimentosRegistrar mensalmente a quantidade de alimentos doados individualmente e o total processadoProgramar cursos e palestras de qualificação dos participantes
Instituto Penal Agrícola
Ceder por empréstimo o local para a instalação da Central de Manipulação de AlimentosCeder água, energia e mão-de-obra para o trabalho de pré-seleção e processamentoProduzir alimentos para o programa (horta)
Fundação Lions de Bauru
Executar a adaptação física da central de manipulaçãoDisponibilizar o aparelhamento necessário para o trabalhoManter e reequipar, quando necessário, a centralFornecer o material de segurança de uso pessoal (uniformes, aventais, luvas, máscaras e toucas) Direito a comercializar os produtos excedentes in natura ou semi-processados que forem produzidos internamente pelo IPAFornecer embalagens plásticas o acondicionamento dos produtosViabilizar e administrar financeiramente o programa
Universidade do Sagrado Coração
Ceder estagiários para monitorarem a central de manipulaçãoProceder exames nos alimentos doadosFornecer treinamento ao colaboradoresFornecer armazenagem e transporte dos alimentos já processadosFornecer treinamento aos membros das instituições assistenciais que utilizarão os alimentosDireito a explorar todo o resultado técnico-científico do programa em edições específicas de nutrição