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Especialização precoce exige cuidados

Daniela Bochembuzo
| Tempo de leitura: 4 min

Técnico alerta que criança não tem estrutura emocional formada para entender que sempre há um vencedor e um perdedor

A especialização esportiva precoce pode trazer prejuízos físicos e emocionais ao atleta. A afirmação é de Jayme Netto Jr., técnico da seleção brasileira de atletismo e professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Presidente Prudente. Segundo ele, o treinamento esportivo para crianças deve ser aliado à recreação.

Quando realiza a especialização precoce e não faz o jogo da recreação, o atleta se estressa emocionalmente em razão da expectativa do sucesso, situação imposta pela dinâmica da competição, pela família. A criança não tem a estrutura emocional formada para entender que sempre há um vencedor e um perdedor, afirma Netto Jr., que esteve em Bauru para ministrar aula no curso de especialização Treinamento Físico Individualizado, na Unesp de Bauru.

O resultado disso, aponta o técnico, é a geração de pessoas frustradas na vida pessoal e no esporte. Em razão dessa constatação, Jayme Netto Jr. idealizou o projeto de esporte-educação Correndo pela Vida, mantido pela Unesp de Presidente Prudente com o apoio de uma ONG e a iniciativa privada.

O projeto funciona há dois anos e atende 260 crianças e adolescentes em situação de risco de Presidente Prudente, indicados pela Vara da Infância e Adolescência daquela cidade.

O objetivo do trabalho é que os assistidos desenvolvam seu repertório motor e, sobretudo, recebam lições de cidadania. Todas as atividades são acompanhadas por professores e alunos dos cursos de Fisioterapia e Educação Física da Unesp, além de assistentes sociais e psicólogos.

São crianças que vão lá para se divertir, ter atividade física, lazer, acompanhamento escolar e nutricional, receber orientações de assistência social, psicólogos. A gente trabalha a auto-estima, dá palestras, é um projeto muito bonito, garante Netto Jr..

Na opinião do técnico, o Correndo pela Vida é um projeto democrático na medida em que não exclui quem tem talento e quem não tem. O modelo esporte para todos é bonito, mas não podemos excluir o atleta talentoso porque ele é o diferencial, salienta.

Assim, inicialmente, todos os assistidos participam de eventos recreativos promovidos pelo projeto. Ao longo das competições entre eles é que Jayme Netto Jr. seleciona quem tem aptidão. Os talentosos são, então, encaminhados ao Clube de Atletismo, também mantido pela Unesp de Presidente Prudente, onde recebem treinamento e acompanhamento adequados.

Em dois anos de trabalho, o projeto já contabiliza seis são campeões brasileiros infantis e juvenis e três postos na seleção brasileira de atletismo.

Além do apoio da Unesp e da iniciativa privada, os 260 assistidos recebem uma dose extra de otimismo: eles são apadrinhados pelos atletas olímpicos treinados por Jayme Netto Jr., que participam de muitas atividades desenvolvidas pelo projeto.

Entre os padrinhos está o medalhista olímpico Claudinei Quirino. Eles servem de espelho para as crianças, explica Netto Jr..

Tanto Claudinei quanto Edson Ribeiro, também medalhista olímpico em atletismo, começou a treinar após os 20 anos, prova de que os talentos esportivos não despertam, necessariamente, durante a infância.

Netto Jr. é autor de técnica inovadora no revezamento

O técnico da seleção brasileira de atletismo Jayme Netto Jr. é autor de técnica pioneira de passagem de bastão, utilizada na corrida de revezamento. O método, que permite a redução no tempo de passagem, é uma das causas da obtenção de seguidas medalhas olímpicas e internacionais pela equipe brasileira na modalidade.

Netto Jr. desenvolveu a técnica a partir da variação de duas outras, francesa e norte-americana. Na primeira, o bastão era utilizado como extensão do braço. Na segunda, o braço fazia o movimento de baixo para cima.

Na técnica de Netto Jr., o bastão é passado verticalmente e o braço não fica estendido, com a mão em posição posterior. A mudança foi necessária em função da equipe de revezamento contar com atletas de alturas diferentes, casos de Claudinei Quirino com 1,90 metro e Vicente Denílson com 1,56 metro.

A diferença de altura me obrigou a fazer a adaptação da técnica e com ela ganhamos tempo na passagem e, conseqüentemente, na estatística da corrida, que nos leva ao recorde mundial, diz Netto Jr., cuja método é copiado por equipes do mundo todo. A equipe brasileira é atual campeã mundial e olímpica no revezamento.

Bastante observador, Netto Jr. é considerado um dos melhores técnicos de atletismo do mundo. Seu segredo é aliar conhecimento científico, que obtém e mantém como professor universitário, e a vivência do esporte, resultante do trabalho como técnico e como coordenador do projeto Correndo pela Vida.

Foi a partir dessa interação entre a academia e a prática, o interesse em desenvolver método próprio de trabalho e selecionando alguns talentos, que consegui ter atletas renomados, como Claudinei e Edson Ribeiro, afirma o técnico.

Netto Jr. começou a atividade de técnico em 1984. Formado em fisioterapia e educação física, foi técnico da seleção juvenil de atletismo de 1989 e 1990. No ano seguinte, passou a treinar a seleção adulta, cargo que ocupa até hoje.

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