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Neuróticos Anônimos comemoram 14 anos em Bauru

Rose Araujo
| Tempo de leitura: 5 min

O Grupo Viver de Verdade, de Neuróticos Anônimos (NA), festejou, ontem, seus 14 anos de existência em Bauru com uma reunião comemorativa. Durante todo o dia, integrantes da entidade discutiram a filosofia do NA, deram depoimentos pessoais e participaram de uma confraternização, com direito a bolo e chocolate.

De acordo com Valdete (eles não podem fornecer o nome completo pela própria característica da entidade), responsável pela exposição de idéias durante o evento de ontem, o NA nasceu com base no Programa de Recuperação de Alcóolicos Anônimos. A pessoa que fundou o NA, nos Estados Unidos, em 1964, estava freqüentando o Alcóolicos Anônimos quando percebeu que as regras do AA poderiam ter uma interpretação mais abrangente, ajudando na cura de pessoas que têm problemas emocionais, disse.

Ela salientou que a sociedade acaba fazendo uma imagem negativa do NA, como se a entidade reunisse pessoas loucas e sem controle da suas vidas. Não é nada disso. Os freqüentadores são pessoas normais, que vivem na comunidade, trabalham, mas não conseguem ser feliz, disse Valdete.

De acordo com ela, são indivíduos que não conseguem administrar suas emoções e acabam, com isso, atingindo as pessoas que o rodeiam. O NA, portanto, é voltado para quem sofre de problemas muito comuns no dia-a-dia, como depressão, angústia, solidão e medo. O nome Neuróticos não está no seu sentido científico, pois nós não somos uma entidade médica. Somos leigos e procuramos ajudar as pessoas que não estão se sentindo bem com seu eu interior, disse.

O Programa de Recuperação usado pela irmandade propõe 12 Passos e 12 Tradições aos seus freqüentadores. As sugestões levam ao desenvolvimento de uma vida espiritual, não religiosa, em que a pessoa deverá buscar em um ser superior (qualquer que seja sua crença) o apoio para a recuperação.

12 Passos

Os 12 passos são as regras que devem ser observadas para a recuperação do freqüentador do NA. Ele começa com a admissão do problema. A pessoa tem que aceitar que está doente e tem que ter força de vontade para se tratar, disse Valdete.

Em seguida, deverá se dar conta de que existe um poder superior que poderá ajudá-la a sair dessa situação.

No terceiro estágio está o inventário da vida. A pessoa tem que fazer um balanço dos seus erros e acertos e procurar ter uma visão bastante honesta de si mesmo, sem tentar se fazer de vítima do problema. Os membros do NA não têm por costume passar a mão na cabeça de seus freqüentadores. Eles têm que aceitar os seus problemas e não tentar encobrí-los, salientou Valdete.

Os passos giram sempre em torno da aceitação da existência de um Deus (de qualquer concepção) e na remissão das falhas de cada um.

O NA leva em conta sete lemas, que são como uma bússola guiando so freqüentadores para a cura de seus problemas. São eles: fazer primeiro as coisas primeiras; devagar se vai longe; viver e deixar viver; viver na graça de Deus; esquecer os prejuízos; recomendar-se a Deus incondicionalmente; só por hoje.

Assim como no caso dos Alcoólicos Anônimos, no NA os depoimentos dos colegas de grupo são fundamentais na recuperação. É o que chamamos de Terapia de Espelho, no qual percebemos que não somos os únicos a ter problemas no mundo, disse Avlad (nome fictício), uma das integrantes do Grupo Viver de Verdade.

Qualquer pessoa pode fazer parte do grupo de recuperação bastando, para isso, aceitar seu problema e reconhecer que precisa se tratar. Como não trabalha de forma científica, o NA tem um questionário simples e prático para identificar quem deve se associar ao grupo.

Serviço

As reuniões do NA em Bauru acontecem às terças, das 20 horas às 22 horas, na Igreja Nossa Senhora Aparecida (Praça Washington Luiz); às quartas, no mesmo horário, na Comunidade Cristã Vineyard (rua Azarias Leite, 9-51).

Depoimentos

Depoimentos de alguns freqüentadores do NA:

Eu era uma pessoa extremamente nervosa. Por conta disso, comecei a beber e tomar remédios antidepressivos. Pouco tempo depois estava me sentindo no fundo do poço. Me isolava das pessoas e me achava incapaz de realizar qualquer atividade.

Eu não sabia administrar os meus sentimentos. Foi então quando conheci o Neuróticos Anônimos e decidi me recuperar.

Freqüento o Grupo há seis anos e já me sinto bem melhor. Tenho certeza que me recuperei, mas ainda estou em busca de muitas coisas para melhorar minha vida. Não bebo mais e nem tomo remédios. Só falta eu me livrar do vício do cigarro. Já estou bem perto disso, usando a terapia do NA, Avlad.

Fui criada em um lar pertubado pela neurose. Só me dei conta disso depois que comecei a freqüentar o NA. Nada dava certo na minha casa até que, com 17 anos, decidi casar para abandonar aquela vida que não me fazia bem.

O meu marido me tratava bem, mas era uma pessoa viciada. Minha vida era sexo, drogas e rock n roll, literalmente. Percebi que não era isso que queria para mim e, dois anos depois de ter casado, decidi me separar.

Comecei a freqüentar uma igreja e viver princípios religiosos. Foi um período de muita religiosidade. O neurótico tem tendência a extremos.

Há uns quatro anos, eu tiver perdas financeiras consideráveis e isso agravou meu caso. Fiquei com vontade de me matar e comecei a fumar e a beber.

Foi aí que procurei o NA. Cheguei até o grupo sem enxergar, psicologicamente falando. Não queria ver as pessoas e não queria que elas me vissem.

Encontrei companheiros que não alisaram minha neurose. Aos poucos comecei a ser uma pessoa organizada, viver só por hoje para controlar a ansiedade e viver na graça de Deus. O NA me devolveu um equilíbrio que era para ser natural em mim, mas que eu não tinha devido a fatores externos, Maria, freqüentadora do NA há 3 anos.

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