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Associação de ferroviários será extinta após 74 anos

Redação
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A Sociedade Beneficente 19 de Junho, formada por representantes da categoria dos ferroviários da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, está em processo de dissolução. Ontem, dia em que a entidade completou 74 anos de existência, foi realizada uma reunião em que foram discutidos aspectos jurídicos do término da sociedade.

Estiveram presentes na reunião seis dos 97 membros que atualmente compõem a sociedade - João Baptista da Silva, o atual presidente; Eduardo Lázaro de Barros; Walter Flávio Barbosa; Irineu Colombini; Aristeu Teodoro e Gerson Ignácio da Silva, além do convidado João Francisco Tidei de Lima, coordenador do Centro de Memória Regional Unesp/RFFSA.

A sociedade foi fundada em 19 de junho de 1927 a partir da união de ferroviários que buscavam uma entidade com fins assistencialistas, de acordo com Barros. A sociedade é uma instituição de auxílios mútuos entre seus associados, contando-se ilimitado número de sócios do sexo masculino. Em 1927, os benefícios sociais não eram como hoje. Não havia previdência social. Então, o que acontecia? O funcionário era afastado do serviço sem investimento. Eles viram que estava faltando alguma coisa e se uniram para fazer esse tipo de sociedade que socorria. Era uma sociedade assistencialista, disse.

A sociedade chegou a ter cerca de 800 sócios e conta, atualmente, com 97. Barros afirma que não é possível subir as quotas das mensalidades, que hoje são de R$ 4,00, já que a classe está desfavorecida pelos salários baixos. De 1960 para cá, não entraram mais sócios. Deixou de ser interessante. Não tem mais condições. O pessoal envelheceu, está todo mundo cansado. Não tem mais sentido, A diretoria é sempre a mesma. Tornou-se cansativo. O sindicato, que veio depois, já cuidava de bastante coisa. A estrada de ferro tinha hospitais etc. Eles davam a assistência que nós não tínhamos condições de dar. A sociedade, com isso, foi se aquietando. Os sócios não foram se renovando e os antigos foram morrendo ou se aposentando, expôs Barros.

Além do assistencialismo, a sociedade também tinha fins culturais, de acordo com o professor João Tidei de Lima. O que é interessante também é a vida cultural que eles tinham aqui - bastante rica. Eles tinham uma biblioteca com autores clássicos, salientou.

A extinção da sociedade foi decidida em maio deste ano, em uma reunião extraordinária realizada entre os membros da entidade. Os processos jurídicos indicam que a Universidade Estadual Paulista (Unesp) deverá assumir a guarda de todo o acervo documental da entidade, assim como parte do mobiliário. Esse material vai para o Centro de Memória. Nós vamos reservar uma sala para isso. Eles já decidiram, numa assembléia passada, extinguir a associação. O que está havendo agora são procedimentos jurídicos, esclareceu João Tidei de Lima. Eu acho que não tem, em Bauru, nenhuma entidade mais velha que essa, observou.

A dissolução da sociedade é motivo de tristeza para seus últimos associados, que guardam lembranças dos períodos de ouro da ferrovia. A gente sente uma tristeza de estar com esse processo porque a sociedade nasceu em função da ferrovia e está terminando em função da morte da ferrovia, lamentou o membro Aristeu Teodoro.

História

A Estrada de Ferro Noroeste do Brasil foi a principal alavanca de desenvolvimento de Bauru, da região e de grande parte do Noroeste Paulista, de acordo com o professor João Tidei de Lima. A Noroeste foi uma espécie de eixo desse desenvolvimento. Quando foi fundada a sociedade, o Brasil tinha perto de 30 mil quilômetros de ferrovia funcionando, com pontualidade, segurança etc. Em Bauru, em 1960, passavam 28 trens de passageiros por dia. Era o maior entroncamento ferroviário da América Latina. Os jornais de São Paulo e o correio chegavam por trem. Hoje, passados 74 anos, o Brasil tem perto de 27 mil quilômetros de ferrovia - na maior parte sucateados, afirmou o professor.

Ele acrescenta que as cidades da alta Noroeste foram fundadas em decorrência da ferrovia. A primeira casa construída na região teria sido a estação ferroviária.

A ferrovia começou a entrar em decadência, no Brasil, a partir dos anos 50, quando deu seus primeiros sinais de falência. A ferrovia teve investimentos cortados. As locomotivas estavam sucateadas e os funcionários começaram a se conscientizar das dificuldades. As empresas foram atrasando os pagamentos e o lucro não vinha mais para Bauru - começou a ser seqüestrado, contou Teodoro.

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