O tratamento de choque utilizado pelo Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, que quarta-feira elevou os juros básicos taxa Selic de 16,75% para 18,25%, provocou polêmica entre os economistas. O principal sentimento é de desaprovação. Porém, há os que não só acharam correta a elevação, como também defendem a dolarização do País. Uma coisa é certa, os reflexos no custo do dinheiro para o consumidor final devem chegar muito rapidamente.
Para o economista e consultor de empresas Carlos Roberto Sette, a alta da Selic se baseou no fechamento de taxa de juros no mercado de futuros, que já havia ultrapassado 18%. Porém, Sette acredita que essa alta é danosa, inclusive para o governo, que vai ter que pagar taxas mais altas em sua dívida interna. É um tiro no próprio pé, sentencia.
O economista disse que a alta dos juros foi desnecessária, pois o próprio mercado já vinha trabalhando com taxas mais elevadas. Para ele, se a meta é segurar a taxa de inflação, será possível conseguir, pois o custo do dinheiro ficará muito mais caro. Porém, lamenta, vai haver uma descapitalização da economia, com obtenção de menos lucros pelas empresas e empobrecimento das pessoas.
O economista e professor-chefe do Departamento de Economia da Faculdade de Economia da Instituição Toledo de Ensino (ITE), Wagner Ismanhoto, desaprovou a alta de 1,5% na Selic. Porém ele disse que o governo percebeu que o dólar está saindo de controle e os leilões de títulos lastreados em dólar realizados pelo governo não estão sendo suficientes para quebrar a expectativa negativa que existe por conta da crise mundial e da especulação existente na instabilidade econômica do País.
Para ele, a alta dos juros teve o objetivo de tirar o excesso de procura que está ocorrendo em relação ao dólar. A partir do momento que eleva a taxa de juros, canaliza investimentos para outros tipos de ativos financeiros não tanto direcionados para o dólar, ensinou. Ismanhoto disse que o mercado trabalhava com a hipótese de aumento da Selic, que poderia ser de 0,25% até 5%. Porém a variação mais realista era na faixa de 0,5%. Ele considerou o índice de 1,5% como sendo salgado. O professor lembra que, se a medida é boa para os investidores, por outro lado, é ruim para as pessoas, que usam cheque especial ou para as empresas que se utilizam de financiamentos. Vai inibir o consumo. As taxas de juros no comércio, pode ter certeza, se não aumentaram hoje (ontem) vão aumentar amanhã (hoje), pois o impacto é imediato. Isso vai ser desfavorável, afirmou, lembrando que o próprio governo vai ser prejudicado com a alta da dívida interna.
Ismanhoto disse que não acredita que a Argentina é tão poderosa, assim, para trazer problemas para a economia brasileira.
Pouca oferta
O delegado do Conselho Regional de Economia (Corecon), Reinaldo César Cafeo, afirmou que a desvalorização cambial está inflacionando o preço dos produtos, gerando uma inflação de custos. Lembrou que, com pouca oferta de dólar no mercado e com pressão de demanda, a moeda norte-americana está batendo recorde em cima de recorde. Os investidores inseguros (crise energética, Argentina, Japão, etc.) querem fazer hedeg (proteção).
Cafeo acredita que a alta de juros é uma tentativa do governo para que o dinheiro externo fique no País. Os efeitos colaterais estão na alta da dívida pública interna e uma inibição da demanda, com queda na inflação, que deverá gerar baixa lucratividade nas empresas. Isso deve ter como conseqüência a queda no nível de atividade, com reflexos no índice de desemprego e na renda geral do País.
Para o delegado do Corecon, o posicionamento da equipe econômica do governo deveria ser de demonstrar mais confiança no futuro do País. Porém, nos últimos meses, ao invés de acalmar o mercado, o Copom vem deixando-o mais intranqüilo. Se a leitura é de que está tudo sob controle, não é necessário uma política monetária tão apertada como está implementando. É uma questão só de monitoramento das variáveis, até, eventualmente, chegando a resolver o problema do câmbio com a intervenção no mercado, afirmou, lembrando que a postura adotada terá um reflexo social e econômico muito mais acentuado, com um efeito psicológico perverso, que é uma retroação ainda maior dos agentes econômicos, que pode levar ao caos social. A preocupação de Cafeo é com as empresas e pessoas que fizeram um planejamento levando em conta as projeções do governo sobre a economia, que podem ser muito prejudicadas com o cenário que se alterou muito rapidamente.
Dolarização é defendida
Para o economista Said Yusuf Abu Lawi, a alta da taxa Selic era necessária neste momento, em razão do cenário econômico internacional. De acordo com ele, sistema adotado pela equipe econômica, atrelado ao dólar, faz com que o País seja obrigado a alterar sua rota em razão das oscilações da moeda norte-americana. Para ele, a melhor saída, se não houver uma mudança de postura no governo em direção a uma política mais nacionalista, é a dolarização do País.
Said Yusuf acredita que os juros básicos devem voltar a subir. Para ele, o governo tem apenas duas opções: aumenta ainda mais a taxa de juros ou desvaloriza o real. Não sei se o governo vai ter cacife para agüentar a pressão internacional. Então, ou terá que fazer uma maxidesvalorização ou aumentar a taxa de juros para acalmar o mercado, afirmou.
O economista disse que há uma tendência de dolarização da economia brasileira, principalmente em razão da implantação Área de livre Comércio das Américas (Alca) que, na visão dele, será a alavanca para a dolarização de toda a América Latina. Ele lembra que o Equador está sendo o campo de provas dos Estados Unidos. Argentina está bem encaminhada para isso e o próximo pressionado deve ser o Brasil. A intenção seria fazer na América o mesmo que ocorreu com os 15 países que adotaram o euro na Europa. Há um grande interesse dos norte-americanos em antecipar a Alca, disse, lembrando que o Chile, que tem a moeda mais estável da América do Sul, é o grande responsável pela não antecipação da Alca, que deve ser implantada em 2005.
Said Yusuf disse que é inevitável a dolarização, em razão da globalização e das más políticas adotadas no País. De acordo com ele, se não houver um governo que faça uma política voltada para a produção nacional e implemento da economia nacional, a única saída é a adoção do dólar norte-americano. Não tem outras saída, pega, assume logo o dólar, que vai ser a melhor coisa. Acaba com essa história de recessão, pois se a moeda for dólar tem que trabalhar e produzir, afirmou.