Objetos de pesquisas modificam hábitos e provocam curiosidade da população, que nem sempre entende o motivo do estudo
Quem nunca se questionou sobre o motivo de determinadas práticas e hábitos de pesquisadores ou até mesmo estranhou seus procedimentos, quando concentrados em seus objetos de pesquisa? Determinados trabalhos exigem do estudioso métodos específicos que provocam mudanças de horários e de rotina e, ainda, a curiosidade de muitos cidadãos.
Rosângela Aparecida Marques Martinez é aluna de pós-graduação da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Rio Claro, em Ciências Biológicas, e alvo de bombardeios de questões sobre seus estudos, já que ela especializou-se no período de reprodução e hábitos alimentares de anfíbios anuros, ou seja, sapos, rãs e pererecas. Ela acredita que muitas pessoas têm dificuldades de entender o objetivo de seu trabalho. As pessoas não conseguem entender e perguntam para que serve isso. Eu acho que a maior dúvida das pessoas é essa: elas não entendem o por quê da pesquisa. Mesmo porque acham que o animal é assustador, nojento. Elas ficam curiosas e assustadas, afirmou.
A atividade exige também preparo para enfrentar os curiosos até mesmo em horários de lazer, de acordo com Rosângela. Às vezes, você não está com muita paciência de falar sobre aquilo - numa festa, por exemplo. Mas as pessoas perguntam. Esta semana aconteceu isso. Eu fui a um churrasco e uma pessoa me falou o que você faz com o sapo, eu não consigo entender!, desabafou.
Além da curiosidade, os estudos de Rosângela já causaram desconforto a alguns conhecidos, segundo ela conta. Uma vez, eu trouxe um material fixado para casa. Já estava morto, estava no vidro. Um amigo do meu marido tem pavor de sapo, ficou indignado e pulou a janela do quarto de medo, pavor do bicho. Ele achava que dava arrepio, que era uma coisa nojenta e não se conformava sobre como eu mexia com isso, lembra.
Os horários e a rotina de um pesquisador podem parecer estranhos a um leigo, já que, muitas vezes, há necessidade de deslocar-se para lugares diferentes e nos mais diversos horários, como à noite. Rosângela contou que a pesquisa de campo requer visitas periódicas ao habitat natural das espécies que estuda. Na época da reprodução, eles geralmente procuram corpos dágua (lagos, rios, riachos, brejos) porque a maioria deles se reproduz em ambiente aquático. Então, a pesquisa tem que ser feita, geralmente, no corpo dágua. Você procura um corpo dágua, vai à noite - tem toda uma metodologia para cada pesquisa. De um modo geral, você faz visitas diurnas e noturnas. Nas diurnas, você coleta larvas, observa pontos de desovas. Durante a noite, você faz as observações com os adultos, esclarece.
A pesquisadora enfatizou a importância da proximidade do campo de trabalho nos períodos de sua execução. Semanalmente, você vai ao campo de dia e à noite, e é uma coisa meio esquisita. Dependendo do local em que você trabalha, é até meio perigoso. Na época em que se executa o projeto, praticamente temos que ir ao campo semanalmente. Porque vamos ver durante o ano todo se aquela determinada espécie estudada está ocorrendo ou não. Nesse sentido, o trabalho é meio complicado, porque você fica presa num determinado local até terminar de coletar seus dados de campo, salientou.
Os locais de pesquisa podem estar nas proximidades ou mesmo no interior do perímetro urbano de uma cidade, de acordo com Rosângela. A pesquisa pode ser feita em locais nas proximidades também. Depende do que você quer estudar. Mas dá para você fazer um trabalho na região de Bauru, por exemplo. Mesmo em São Paulo, as pessoas fazem alguns trabalhos, afirmou.
O interesse da pós-graduanda por tão inusitado objeto de pesquisa surgiu no final de seu curso de graduação. Desde então, ela vem aprofundando-se no tema. Eu comecei estagiando para fazer o trabalho de final de curso, por causa de um professor que sempre incentivou muito, mostrando o objeto de pesquisa. Isso chamou muito a minha atenção. Eu sempre gostei muito de animais, de uma forma geral, e me despertei para essa área, observou.
Ruídos
As pesquisas do professor João Cândido Fernandes, do Departamento de Engenharia Mecânica da Unesp, são outro alvo de curiosidade dos bauruenses, que o conhecem pelas medições de decibéis que realiza pela cidade. Ele desenvolve pesquisas sobre acústica ambiental e sobre o ruído urbano como responsável por problemas de saúde das pessoas. Em todas as cidades, existe nível de barulho altíssimo, principalmente devido aos escapamentos de veículos e aos sons provenientes de bares e boates. Os empregados de indústrias também sofrem com isso. Há a necessidade de proteger o trabalhador contra a perda de audição pelo ruído, disse.
Com freqüência, o professor é visto pelas ruas da cidade, em avenidas movimentadas, bares, escolas e até mesmo ônibus, portando um aparelho essencial para seus estudos: o decibelímetro. De acordo com Fernandes, trata-se de um objeto semelhante a um gravador, mas suficiente para despertar a atenção dos transeuntes, que o abordam e interpelam em momentos de pesquisa de campo. As pessoas estranham. Todo mundo olha para saber o que é, o que está acontecendo, por que eu estou medindo, qual é o nível de ruído do lugar, contou.
Ainda que haja necessidade de trabalhar em horários diferentes, como no período noturno, a rotina do professor não é um grande problema para sua família e seus amigos, que já estão acostumados. Muitas medições de níveis de perturbação são feitas durante a madrugada, mas isso não tem muita interferência, garantiu.
A popularidade do pesquisador faz com que muitas pessoas se interessem pelo assunto e o procurem na universidade para esclarecer dúvidas. Nós nos tornamos populares nas ruas. Eu recebo várias ligações de pessoas que falam de problemas pessoais, sobre o barulho de uma casa vizinha, querendo saber sobre as leis que regulamentam o problema do ruído excessivo, disse.