O Brasil é caracterizado por fases onde o paciente é enganado ou tratado inadequadamente, de acordo com a moda. Viveu-se a fase onde todos queriam medicamentos homeopáticos, depois um período efêmero onde se buscavam os Florais de Bach, ensaiou-se a época da acupuntura, vivemos agora a fase onde os pacientes estufam o peito para dizer eu uso fórmula, embora não saibam sequer o conteúdo desta. Deveriam saber também que todo remédio tem uma fórmula, independente de ser sólido, líquido, manipulado ou não. Fala-se muito em produtos químicos e esquecem que tudo é um produto químico - até a água (famoso H2O).
Me assusta agora a nova psicose nacional, oficializada e estimulada pelo Governo - medicamentos genéricos. É vergonhoso ver o próprio Governo Federal usar a mídia para enganar o povo. Lamentável ver colegas médicos já amadurecidos se prestarem ao serviço de interlocutores do Governo, ajudando a enganar a população. As propagandas de genéricos são todas meias verdades com o ônus da informação parcial, omitindo orientações importantes.
Fala-se em medicamento genérico mas nunca falam que só é considerado genérico aquele testado, aprovado e que tem na embalagem a designação de medicamento genérico e o número da portaria do Ministério da Saúde que o autorizou. Vale ressaltar que esses medicamentos não são submetidos sistematicamente aos testes de biodisponibilidade (quanto do medicamento contido na unidade ingerida será absorvido pelo organismo) e de bioequivalência (quanto dele será encontrado no organismo sob sua forma ativa). Fez-se o teste, deu-se a autorização e sabe Deus quando serão novamente fiscalizados para ver se mantêm a qualidade do medicamento.
A população não sabe que alguns dos laboratórios produtores de medicamentos genéricos eram até pouco tempo, indústrias de BO (Bom para Otário) - segundo o representante da Abifarma, ou bonificado (compra um e ganha um ou compra um e ganha dois). A população pensa que qualquer remédio com o nome químico (agora chamado genérico) vem de uma só indústria farmacêutica pois infelizmente é muito insciente, desinformada e, o que é pior, precisando economizar seu ganho irrisório acredita numa propaganda enganosa de um governo desonesto.
Deveria ser obrigatório durante as propagandas salientar com ênfase a necessidade da embalagem sempre ter a inscrição genérico e a portaria que o autorizou (o número). Muitas farmácias ganham muito mais trocando medicamentos receitados por médicos por outros de maior margem de lucro (os BOs) ou por aqueles que estão próximos de perder sua validade (é a famosa empurroterapia). Agora, com esta onda do genérico, a população, orientada pelo governo, chega no balcão da farmácia pedindo para ser enganada - e o é, mais que nunca. Outro dia presenciei uma senhora idosa passando por isso em uma farmácia de Bauru, tendo seus Aldomet, Moduretic e Meticorten, trocados por três BO.
O povo não sabe que tem uma dipirona genérica, mas que tem no País mais de 50 laboratórios fabricando dipirona, sem se saber a qualidade de cada uma. Existe dipirona custando R$ 1,20 e até R$ 8,60. Isso o Governo não diz. Mais de 10 laboratórios fabricam diclofenaco, mas só um é genérico e que os preços e a confiabilidade variam. Os meios de comunicação deveriam ir mais fundo nesta questão. Coloco-me à disposição de todos. Não tenho cargo político que me impeça de falar a verdade. (Áureo Antonio Érnica - CRMSP 33.576)