É um momento de prazer para mim poder estar em um quarto totalmente branco com uma grande janela em uma das paredes, ao centro um cavalete com uma tela, tintas à óleo, vários pincéis e um aparelho de som. Com esta atmosfera, então, poder pintar ouvindo músicas que me façam voar com a imaginação; músicas de grupos como Pink Floyd, Legião Urbana, de Bon Jovi, canções medievais ou as composições de Goran Bregovic, autor das trilhas sonoras de filmes de Emir Kusturica, como Um Sonho Americano ou Underground.
Outro prazer que tenho na vida é poder estar atento e alegrar-me com as surpresas que o dia nos traz.
Como aconteceu-me em um trem há duas semanas atrás, quando viajava de Munique para Colônia. À minha frente sentou-se uma senhora que aparentava já ter seus sessenta anos. A viagem então transformou-se em uma interessante conversa com aquela médica russa que fazia uma viagem de turismo pela Europa Ocidental.
Enquanto o trem cruzava a Alemanha, conversamos sobre a política autoritária do presidente Putin, a beleza, como também a situação de pobreza de nossos dois países, sobre bioética e teologia. Já bem perto de Colônia começamos a sorrir juntos, felizes pelo prazer daquele encontro. Afinal, não é sempre que um padre católico brasileiro e uma médica russa atéia, encontram-se em um trem na Alemanha.
Outra situação que me traz a sensação de prazer é poder, em uma noite de verão, sentar fora com amigos de verdade, tomar aquela cervejinha e conversar descontraidamente sem precisar olhar para o relógio. Sem dúvida alguma, nós poderíamos enumerar muitos outros exemplos, como arroz branco com ovo estalado em cima, caminhar pela praia no final de uma tarde, uma boa notícia, mandioca frita, um abraço forte ou um beijo. Uma coisa é certa, nós seres humanos, procuramos sempre, conscientemente ou não, coisas e situações que possam nos oferecer uma das sensações mais desejadas e procuradas na vida: o prazer.
Dizer que somos homo sapiens é muito pouco. O ser humano não define-se simplesmente por sua capacidade de racionalizar o que vive. Nós somos também homo ludens ou animal risibile. Saborear a vida é um dom especial da espécie humana e constitui-se em um fator vital para o nosso desenvolvimento e nossa realização como pessoa. Como diz um provérbio irlandês, uma boa gargalhada e um bom sono são as duas melhores curas.
O ser humano não é somente intelecto, mas uma unidade indivisível de corpo, alma e espírito. Sem uma relação sensitiva e sensual com o mundo, o nosso existir como humanos seria impossível.
Desde a antigüidade religiões e filosofias acentuam a necessidade dos prazeres da vida. Os salmistas do Antigo Testamento não cansam de valorizar o pão que alimenta, o vinho que alegra o coração das pessoas e a importância de guardar o sábado como dia de sossego e de relaxamento. O livro Cântico dos Cânticos ressalta a beleza do prazer erótico e o expõe como caminho de união com outro e com Deus. O próprio Cristo, que não era nenhum João Batista, freqüentou intensamente a vida social e esteve presente em diversos jantares ou festas, sendo até mesmo criticado por isso (Mt. 11, 18-19). Se lermos com atenção os Evangelhos, é surpreendente que tenhamos na iconografia cristã tão poucas imagens de Jesus sorrindo. Tomás de Aquino nos chama atenção para a necessidade do prazer do corpo e dos sentidos. Em sua Suma Teológica as paixões humanas recebem o nome de dilectatio, expressão que significa gozo, satisfação, prazer. Através das diversas dilectationes vivemos ativamente o momento presente e estamos em intensa comunicação com o mundo (dilectatio est operatio). O prazer é uma forma de conhecimento e interação com o cosmos. Através da alimentação, do sorriso, do sexo, do ritmo, do sono, do olhar, do toque estamos experimentando nosso universo e nos comunicando com as outras pessoas. O prazer nos coloca em um processo de auto-conhecimento e nos dá orientação para a vida. Ele é, por exemplo, um dos principais critérios para a escolha de nossa vocação, para a escolha de nossa atividade profissional. Todo ser humano deve ter prazer no que é e no que realiza. É triste quando um professor, um médico, um padre ou um pedreiro não possui prazer no que faz. A falta de satisfação e alegria com aquilo que realizamos não só destrui a nossa vida, mas também prejudica a vida daqueles que vivem em nosso universo. Somente quando possuímos prazer em viver, somos capazes de transmitir aos outros a sensação de felicidade e ajudá-los a serem felizes também. Quem não sabe saborear a vida é um prisioneiro da insensibilidade e um analfabeto de sensações.
(*)Padre BetoEspecial para o JC CulturaFale comigo através do e-mail: roberto.daniel@lycos.com