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Índios querem levar Funai para Itu

Adilson Camargo
| Tempo de leitura: 5 min

Pedido dos indígenas foi feito ao presidente da Funai, na semana passada. Mudança pode favorecer aldeias do litoral

Avaí - Índios guaranis e terenas das aldeias de Avaí e do Litoral Norte e Sul paulistas estiveram reunidos com o presidente da Funai, Glênio da Costa Alvarez, na última semana e, entre outros assuntos, solicitaram a transferência da sede do escritório regional da entidade de Bauru para Itu. Os indígenas alegam que essa mudança representaria uma grande vantagem já que a maioria das aldeias atendidas pela Funai de Bauru ficam no litoral. São 17 aldeias no litoral, três na Grande São Paulo e apenas quatro no Interior, mais exatamente na região Centro-Oeste, sendo duas em Avaí. Cerca de 700 quilômetros separam Bauru das aldeias remanescentes do litoral paulista. Bauru responde ainda pela administração de três aldeias no Estado do Rio de Janeiro.

Além do pedido para mudar a sede do escritório regional da Funai, os índios aproveitaram a oportunidade para manifestar apoio ao atual administrador Rômulo Siqueira de Sá, que passou por um recente processo de investigação para apurar denúncias de irregularidades nas contas de 2000. A demarcação das terras indígenas também foi tema da reunião da semana passada, durante visita do presidente da Funai ao litoral.

De acordo com o cacique Antônio da Silva Auá, da aldeia Renascer, em Ubatuba, Alvarez prometeu estudar a proposta das lideranças indígenas de mudar a sede da entidade para Itu.

A proposta conta com o apoio até mesmo de algumas lideranças das aldeias Copenoti e Nimuendoju de Avaí. Benedito Maria e o cacique Jasoni, ambos da aldeia de Copenoti, e o pagé Daran, da aldeia de Nimuendoju, são exemplos do apoio que a idéia recebeu das lideranças indígenas. A gente está dando total apoio à mudança da Funai para Itu, afirmou Benedito Maria. Precisamos olhar também o lado de nossos parentes do litoral, disse o cacique Jasoni, referindo-se ao suposto benefício que traria, aos índios do litoral paulista, a transferência da sede da Funai de Bauru para Itu, cidade mais próxima das aldeias do litoral, da Grande São Paulo e do Rio de Janeiro.

Os índios fizeram questão de também manifestar apoio ao serviço realizado pelo atual administrador da Funai em Bauru. O dinheiro está sendo aplicado nas aldeias. Sabemos que a situação não está fácil. Se o governo mandasse mais verba, com certeza nossa situação estaria bem melhor, comentou Cândido Mariano Elias, cacique da aldeia Icatu, de Braúna.

Aldeias divididas

A prestação de contas do exercício de 2000, da Funai de Bauru, dividiu os índios paulistas em dois grupos. Um deles levantou-se contra o atual administrador e ainda luta pelo afastamento definitivo de Rômulo. O outro grupo, formado basicamente pelas lideranças que agora pedem a transferência da Funai para Itu, aceitaram os argumentos e os números apresentados pelo administrador.

Enquanto o primeiro grupo busca apoio no Congresso para derrubar Rômulo, o segundo levanta a bandeira branca e pede paz entre os índios. Seria bom se acabássemos com esse conflito, que prejudica apenas a comunidade indígena. Eu queria ver todo mundo unido, trabalhando junto para ampliar nossos recursos. Vamos parar com tanta polêmica, pediu o cacique de Braúna.

Em um momento de autocrítica, Benedito Maria, da aldeia Copenoti, de Avaí, disparou: Não é a Funai que atrapalha o índio, mas sim a politicagem. São os próprios índios que atrapalham a Funai. Não queremos essa palhaçada. Se o Rômulo estivesse errado, nós também estaríamos contra ele. Precisamos nos unir para fortalecer a Funai. Na opinião dele, a riqueza de uma aldeia são os próprios índios que constroem.

Rômulo aguarda detalhes de Brasília

Avaí - Procurado pela reportagem para comentar o pedido dos índios, o administrador da Funai, em Bauru, Rômulo Siqueira de Sá, disse que a proposta precisa ser muito bem analisada. Na opinião dele, a transferência da sede da Funai de Bauru para Itu envolve várias questões.

Para Rômulo, a mudança da sede não se resume apenas em fechar um escritório e abrir outro. Com a transferência da regional, cerca de 30 funcionários também teriam que se preocupar com as respectivas mudanças. Isso envolveria até mesmo questões familiares.

Pedi que me fosse enviado um documento oficial da Funai, em Brasília, sobre o assunto, mas até agora não recebi nada, revelou Rômulo. No documento, ele pede ao presidente da entidade, Glênio da Costa Alvarez, mais detalhes sobre o pedido. Quero saber o que se pretende com isso. Em princípio, Rômulo não se coloca nem a favor nem contra a proposta. Antes de manifestar qualquer opinião sobre o assunto, ele quer ser melhor informado pelo comando da entidade, em Brasília. Segundo o administrador, ele ficou sabendo da proposta por intermédio dos índios. Uma mudança como essa não é uma coisa simples.. Além de representar uma decisão definitiva, a transferência da Funai, na opinião de Rômulo, teria um custo muito alto.

Jogo de empurra

Durante toda a tarde de ontem, a reportagem procurou insistentemente saber também qual é o posicionamento da Funai em Brasília sobre o assunto. No entanto, o que prevaleceu foi umjogo de empurra. A assessoria de imprensa não soube dar qualquer informação sobre a questão. A bola foi passada para a Diretoria de Assistência, para a Coordenadoria Geral de Assuntos Externos e finalmente para o gabinete da Presidência da Funai. Nenhuma informação foi passada. Os principais responsáveis de cada área não se faziam presentes, assim como o presidente Alvarez. Segundo o que foi informado, durante o tour pelos diferentes gabinetes de Brasília, o presidente teria viajado para Passo Fundo (MG) e só volta a Brasília na próxima quarta-feira.

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