Geral

... E viva São João

(*) Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 3 min

O mês de junho é de muita alegria no Brasil todo, pela tradição das suas festas, rojões que riscam o céu estrelado, a animação dos forrós em noites frias aquecidas pelo quentão e adoçadas com pé-de-moleque. Junho acabou e quanto ao aspecto econômico não vai deixar saudades. O dólar disparou, os juros aumentaram, houve o trauma energético, o empresariado vai ter que ajudar no pagamento de R$ 40 bilhões do FGTS, sem falar na CPMF prorrogada até 2003 e na inflação já ultrapassando as previsões oficiais para o final do ano. Ia esquecendo que o País foi apontado na 46.ª colocação, de uma relação de 91 nações, com quatro pontos no Índice de Percepção da Corrupção. É bem verdade - se isso serve de consolo - que no ano passado, o mesmo levantamento da ONG Transparência Internacional nos situava no 49.º posto, com 3,9 pontos. Ainda não dá para comemorar... Perdemos até do Peru com os Fujimori e Montesinos, meros aprendizes diante dos nossos Lalau e Barbalho.

Sempre que falta a ética no âmbito do Poder Público, sobram problemas para o País e para a própria sociedade, que acaba pagando a conta. O dinheiro desviado sob a forma de superfaturamento ou de pagamento de propinas é o que acaba faltando em áreas essenciais como saúde e ensino públicos. O incentivo à educação constitui pressuposto de redução das chances de corrupção. Felizmente, a sociedade brasileira mostra-se cada vez mais amadurecida. Transige cada vez menos contra atos lesivos à boa gestão dos negócios públicos. Quando precisa partir para o sacrifício em benefício do todo, dá exemplos insofismáveis, como o revelado na queda surpreendente no consumo de energia elétrica domiciliar, antes mesmo da existência de leis punitivas para os que extrapolam as metas de racionamento.

Instrumentos como a Lei de Responsabilidade Fiscal e a vigilância permanente de uma imprensa livre serão sempre necessários enquanto o País não se ajustar a padrões éticos desejáveis na vida pública.

Enquanto isso, não podemos reclamar que somos vítimas da fuga do capital internacional, da falta de novos investimentos ou da procura desenfreada por dólares por parte daqueles que só querem proteção do patrimônio que ainda resta. Não há Banco Central que detenha essa avalancha. Dependemos de capitais externos para fechar transações em contas correntes, deficitárias em US$ 25 bilhões. A indústria é competitiva, mas tal não ocorre com o Brasil, atolado em tributos, burocracia e gargalos administrativos que nos impedem de ser ágeis. A campanha presidencial já começou e não conseguimos fazer a reforma tributária que beneficiaria, sobretudo, as pequenas e médias empresas. São muitos impostos sem a necessária contrapartida. E a reforma política que deveria conferir ao país um regime verdadeiramente partidário?

Vamos ter muitas candidaturas salvacionistas, mas o eleitor pode não ver muitas opções entre os nomes que se apresentam. O Mercosul está no fim com a crise argentina e a desvalorização cambial brasileira. Vamos ter que enfrentar a formação da Área de Livre Comércio das Américas, com US$ 18 trilhões de PIB, 700 milhões de habitantes e onde está a maior economia do planeta com seu poder avassalador, os EUA. E o Brasil sem energia elétrica. Será o mesmo que jogar futebol sem goleiro. A estabilidade da nação está em perigo porque as reformas não aconteceram. O Congresso ficou entretido com CPIs inúteis, como a do futebol, e as polêmicas do caso ACM. Acho melhor invocarmos não somente a São João, mas os demais santos juninos. Vamos precisar de muita proteção divina. Viva Santo Antonio e viva São Pedro, também.

(*) Zarcillo Barbosa é jornalista e colaborador do JC

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