Geral

FESTA NA ROÇA

Wanderley Brosco
| Tempo de leitura: 2 min

É de manhã e o Sol já emitiu suas primeiras flechas de ouro, porém, as pequeninas flores de São João que desabrocham nas campinas nesta época do ano ainda estão veladas pela névoa da madrugada. Da porteira de entrada da querência, ouvimos o canto da siriema vindo de perto dali. Bandeirinhas multicores agitam-se alegremente, sugerindo boas-vindas. Por sua vez, as palmeiras líricas de palmito têm seus ramos a balançar suavemente transmitindo ao ambiente um poder de calma e beleza. Dali do alto, a vista panorâmica é bastante pródiga abrangendo alguns núcleos de pastagens e a floresta que se estende até a linha do horizonte. As coisas sonham desenhando vagos ruídos vindos do riacho e da mata fechada. Por um momento, a gente pensa viver assim afastado de qualquer poluição e fora de toda agitação vã, para pensar com mais sossego na vida.

Mas é São João e começa chegar os convidados. Emílio testa os lampiões, a querosene; Vitório, as bombas de chopp; Glauco acomoda as mesinhas no gramado; Wagner e Tadeu cuidam da churrascada. O correio-elegante, esta original função de quermesse junina, foi organizado pelo Gordo. Magrelo avisa existência de caninha boa, de garrafão, chegada diretamente do alambique. O pau-de-sebo, o joguinho de derrubar latas com bolas de pano e a pesca dos peixinhos são atrações bem apreciadas pelas crianças na tentativa de abiscoitar prêmios.

Na disputa de troféus, um acirrado torneio de truco envolve o galpão não faltando blasfêmias e berros previstos no regulamento do jogo. Encerrado o torneio, agora que o Sol já se escondeu do outro lado do horizonte, as atenções se voltam para o casamento caipira. O padre despenteadíssimo procura apaziguar a noiva: alta e gorda, impaciente face à demora do noivo. Ele, baixo e magro, finalmente chega, de terno riscado, sobraçando seu inseparável guarda-chuva, pomposamente instalado no dorso de um burro pardo. Após a cerimônia matrimonial é acesa a grande fogueira. A música típica, João, Antonio e Pedro, é acionada, por uma dupla de sanfoneiros, ao vivo. Morteiros e lágrimas povoam o céu; busca-pés passam em desabalada carreira, apenas riscando a noite: sem produzir estampidos.

Após a apresentação da quadrilha, tem seqüência o baile com participação geral.

Muito chopp, churrasco, pipoca, milho verde, quentão, pé-de-moleque e eu dormi, porém no sonho havia muitas vozes, ruídos de copos e músicas. Ergui-me, fui até a varanda, já era madrugada, apagão total, todos haviam ido. Sobre o nascente, onde a barra do dia era uma esperança de luz, havia nuvens espalhadas em várias direções, como se durante a noite o vento tivesse dançado no ar. Depois, pouco a pouco, foi se acendendo uma aurora radiante. Eu ouvia a pulsação de um motor ao longe. Em seguida, o veículo avançou a subida do canavial, a ponte do córrego, e mergulhou na amplidão da floresta. A pulsar como um fiel coração. (Wanderley Brosco - RG: 2.676.214-6)

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