Três casos de grampo em Bauru foram investigados pela DIG nos últimos dois anos. Cresce o número de arapongas
As paredes têm ouvidos. Pelo menos quando trata-se dos grampos e escutas telefônicas dos arapongas, os detetives particulares que conseguem escutar e gravar o que se fala ao telefone com a instalação de um aparelho.
O delegado-titular da Delegacia de Investigações Gerais-Grupo Armado de Repressão a Roubos e Assaltos (DIG-Garra), J.J. Cardia, afirma ter investigado três grampos telefônicos nos últimos dois anos. Há pouco mais de uma semana, o presidente da Câmara, Walter Costa (PPS) descobriu uma escuta no seu gabinete. Os casos, no entanto, extrapolam a política, podendo atingir qualquer pessoa ou empresa.
Cardia explica que as principais motivações são os casos de suspeita de infidelidade conjugal e de espionagem industrial e comercial. O delegado diz que a diferença entre o grampo e a escuta é a seguinte: no primeiro, a gravação é feita no local onde a mensagem é interceptada, com o uso de um gravador comum. No caso da escuta, um transmissor manda a mensagem para outro local, por meio de ondas. Para realizar a escuta é preciso um aparelho sofisticado, como o que foi apreendido no gabinete do vereador. O grampo é feito com facilidade e pode ser comprado em lojas de telefonia.
De acordo com a assessoria de imprensa da Telefonica, não há como controlar os grampos e escutas instalados até os postes das casas. A assessoria afirma que a empresa faz supervisão permanente em toda a rede para evitar a quebra do sigilo telefônico, garantido na Constituição. A empresa não tem um levantamento de quantos casos foram registrados nos últimos anos. Segundo a assessoria, normalmente as pessoas que descobrem alguma irregularidade recorrem diretamente à polícia.
O delegado Cardia confirma. As pessoas percebem alguma diferença na linha e solicitam que seja feita uma varredura, nisto é encontrado o gravador e o grampo, na extensão telefônica externa, afirma. De acordo com ele, o grampo fica do lado de fora para que a pessoa possa trocar a fita e seguir gravando.
Segundo o delegado, a violação da comunicação por meio de aparelho eletrônico é crime previsto no Código Penal, artigo 151 e prevê pena de detenção de um a três anos. Cardia afirma estar especialmente preocupado com a proliferação dos arapongas em Bauru.
Vou mandar um ofício para o Ministério do Trabalho para saber se os auto-intitulados detetives particulares são legais. Se não forem, vou tomar as providências para impedir a ação destas pessoas, ameaça. O delegado diz que os arapongas causam intranqüilidade social.
Até a polícia precisa de autorização judicial para fazer escuta e as gravações só valem como prova após essa autorização, ressalta Cardia. De acordo com a assessoria de imprensa da Telefonica, a empresa só permite a implantação dos sistemas de gravação no caso de determinação judicial.
Antigrampo
Para o delegado Cardia, a melhor opção para as pessoas que desconfiam estar com o telefone grampeado é a instalação de um antigrampo. Existem vários modelos no mercado, desde aparelhos que distorcem a voz quando gravada até os que indicam que a conversa está sendo gravada e emite um sinal de bip.
A reportagem do Jornal da Cidade encontrou tanto um grampo quanto o antigrampo em uma loja de telefonia. O grampo custava R$ 140,00 e o antigrampo saia por R$ 120,00. De acordo com o proprietário da loja, Maurício Mukudai, os dois aparelhos não têm muita saída.
O antigrampo é mais usado pelo pessoal do comércio, que quer ter a prova de que um negócio foi fechado, contou. Mukudai afirma ter comprado os aparelhos mais para ter na loja em caso de procura. Ele disse que nunca recebeu um detetive particular em sua loja.
Profissão: detetive
Há oito anos como detetive particular, Elian, que concordou em falar ao JC desde que não tivesse o nome todo identificado, alerta para o aumento dos clandestinos na profissão. Segundo o araponga, a função é regulamentada. Na entrevista, ele apresentou uma carteirinha do Sindicato dos Detetives Particulares (Sindesp).
Tenho orientado os clientes a pedir o registro dos detetives, caso contrário a pessoa pode até ser chantageada por estes falsos profissionais, afirmou.
Elian diz que não faz grampos sem autorização judicial e quando recebe uma solicitação assim pede para que o interessado procure a Justiça. Não posso correr o risco de ir para a cadeia, afirma.
Segundo ele, um grampo custa, no mínimo, entre R$ 2.000,00 e R$ 2.500,00. Elian afirma que os casos de maior procura são os de suspeita de infidelidade conjugal e de contra-espionagem industrial.
Tem muita empresa com espião lá dentro. Às vezes fazemos investigações lá dentro, com a autorização da firma, para saber quem é a pessoa que pode estar passando informações sigilosas ou grampeando os telefones, afirmou.
De acordo com o araponga, o setor de espionagem está sempre com inovações tecnológicas. Ele afirmou que um programa de computador já permite o rastreamento de linhas telefônicas sem o uso de nenhum aparelho no fio. Além disso, sensores permitem o monitoramento de uma gravação a 300 metros do local.
O aparelho transmissor apreendido no gabinete do vereador é um dos mais sofisticados no setor. O equipamento, que também inclui um microfone e um antena, está passando por uma perícia no Instituto de Criminalística (IC). O laudo deve sair esta semana ou na próxima.