Ronaldo Gifalli é um daqueles artistas que trafega profundamente, já há alguns anos, pelo âmbito da criação mitopoética. A característica do pensamento mitopoético, segundo o meu mestre Julio Plaza, é elaborar conjuntos estruturados, mas utilizando-se fragmentos, resíduos que reorganizam-se em novas narrativas, novas estruturas. É isso, precisamente, o que Gifalli tem feito nesta série de trabalhos que ora expõe.
A obra que apresenta Gifalli surge, pois, da exploração do método mitopoético, através do qual o fenômeno mais característico é o da bricolagem. A bricolagem, segundo Lévi-Strauss, se caracteriza por exprimir meios e expedientes que denunciam a ausência de um plano de ação anteriormente pré-concebido, afastando-se conseqüentemente de processos e normas adotados comumente pelas técnicas tradicionais das artes plásticas.
O trabalho que Ronaldo Gifalli nos oferece nesta mostra evoca um movimento incidental ao utilizar-se de um repertório heteróclito, ou seja, ao incorporar em sua obra materiais fragmentários já elaborados, já existentes, já carregados de significação.
Gifalli parece agir de acordo e em virtude do princípio de que isto sempre pode servir, desenvolvido por Lévi-Strauss e tão amplamente utilizado por muitos artistas contemporâneos. Assim, ele escolhe, recolhe, reúne e conserva, elementos diversos como desenhos, textos, fotografias, marcas, logomarcas, notas de jornal e outros. Estes elementos heteróclitos, verdadeiros cacos de histórias fornecem a matéria-prima para a concretização de uma obra híbrida e instigante.
A construção da obra ultrapassa a mera composição plástica com tais elementos. Além de organizá-los, estabelecendo uma ordenação, Gifalli os cobre, os recobre com camadas de papel de seda e resina poliéster. É precisamente a esse processo que eu chamo de glacér, que provém de glacê, que em francês significa gelo, cristal, espelho e gelado; transparência, opacidade; remete os elementos a um segundo plano, os oculta, os protege, os preserva, os cristaliza, os fossiliza.
Glacér é congelar, lustrar, banhar em açúcar frutas e doces. O glacér de Gifalli congela, lustra, banha em poliéster fragmentos, imagens que lhe são significativas. A resina poliéster, como veículo transparente que é, cristaliza e congela a realidade dessas imagens signos.
A representação visual de alguma coisa significa aquela coisa no mundo do qual é imagem. O que experimentamos diante da obra-imagem quando vemos, averiguamos, inferimos e descobrimos o que é cada objeto? Damo-nos conta do que é cada coisa em particular; cada elemento nos remete a algo do mundo deste artista e seu significado se esgota nesse ato em confronto com nosso repertório. Geramos um espaço ambíguo, onde flutuam precisamente esses elementos visuais recolhidos, coletados, colados que aludem à vida do artista.
Collages de fragmentos significativos do cotidiano. Como afirma Rosalind Krauss - o núcleo do collage como sistema significativo é a adesão de fragmentos, a disposição de um plano sobre outro plano. Cada plano, colado a seu suporte, penetra na obra literalizando sua profundidade, descansando efetivamente em cima e diante do campo o elemento que parcialmente oculta.
A extirpação da superfície original e sua reconstrução, através da figura de sua própria ausência, é o elemento primordial que define o collage como um sistema significativo. O collage estabelece, em definitiva, uma meta-linguagem visual. Pode referir-se ao espaço sem fazer uso dele; pode configurar a figura mediante a constante superposição de campos. Essa capacidade de remeter a algo depende da habilidade que cada elemento do collage tem para atuar como significado confrontando-se com nosso próprio repertório.
Alguns autores apontam que a genialidade do collage reside na intensificação da experiência que o espectador tem, não só dos fragmentos visíveis, mas do fundo, da superfície, do suporte material da imagem. Na realidade, o fundo é literalmente emascarado no collage. Ele não participa de nossa experiência como objeto de percepção, mas como objeto de um discurso, de uma representação.
Na obra de Ronaldo Gifalli assistimos a uma estética autobiográfica imbricada na ambigüidade e na multiplicidade de referências, um convite ao jogo da articulação mitopoética onde, o glacê cobre, vela, oculta e revela.
Serviço
Exposicão de Ronaldo Gifalli, na galeria do Centro Cultural. Grátis. Até 15 de julho. Av. Nações Unidas, 8-9. Informações: 235-1072.
(*) O autor é escultor e professor do Departamento de Artes da Faac-Unesp. Mestre em Artes pela Unicamp e doutorando em Artes pela Universidade de Barcelona. E-mail: joselaranjeira@uol.com.br
(*) Especial para o JC Cultura