Conceituadas como aglomerado de habitações precárias, as favelas deixaram há muito tempo de ser exclusivas das paisagens dos grandes centros. Na última década, elas ganharam proporções assustadoras também nas cidades de médio porte e pequenos municípios, explicitando a ineficácia, para não dizer inexistência, das políticas governamentais de promoção social. São puro reflexo do empobrecimento e da injustiça social que não dão trégua à população brasileira.
Bauru, como não poderia deixar de ser, está inserida neste triste contexto, revelando um crescimento sem precedentes do processo de favelização. O número de barracos na cidade atualmente já é quase cinco vezes maior do que há 10 anos, atingindo pelo menos 3,5% da população. São mais de 11 mil pessoas vivendo em condições subumanas, embora as estatísticas apontem que 25% dos habitantes da cidade estejam abaixo ou na linha da miséria. A diferença nos números pode ser explicada: as paredes dos menos afortunados são de plástico, papelão ou de madeira compensada.
Bauru tem hoje 18 favelas constituídas e dois núcleos de desfavelamento, que, embora com a incontestável melhora de aparência em razão das casas de alvenaria, mantêm as características sócio-culturais-econômicas de antes, para não dizer as mesmas dificuldades.
O processo de desfavelização, concretizado com o Jardim Olímpico e consagrado nacionalmente com o núcleo Fortunato Rocha Lima, foi, sem dúvida, uma iniciativa louvável. O problema é que ação material de concessão de moradias, da mesma forma que os socorros imediatos, como fornecimento de alimentos, são medidas paliativas, de frágil resolutividade.
Muita gente que saiu dos barracos para morar em casas de tijolos não estava preparada para tanto. Houve quem mal sabia utilizar o sanitário; o uso pago da energia e água também assustou. As casas de alvenaria não foram - e nem poderiam ser - por si só suficientes para gerar mudanças nos hábitos. Resultado: a favela continua em meios aos cômodos de tijolos. Os moradores continuam enfrentando o problema do desemprego, do preconceito, da falta de renda, com a agravante de ter agora despesas domésticas para saldar. Faltou continuidade social no programa
Na contramão, estão algumas favelas que já poderiam ganhar o status de bairro. É o caso, por exemplo, da Ferradura Mirim, Jardim Nicéia e Jaraguá, onde os moradores estão conseguindo progredir através de ações de promoção social. Eles se empenham de todas as formas para melhorar a cara do lugar onde moram. Demostram vontade de vencer as dificuldades e conquistar a dignidade que é de direito a todo ser humano, sublinhou Álvaro de Brito, coordenador da Defesa Civil de Bauru e profundo conhecedor do dia-a-dia das favelas locais.
A força de vontade dessa parcela da população e os programas de apoio de natureza pública e privada, no entanto, não conseguem acompanhar o ritmo dos efeitos da injustiça social. Ao mesmo tempo em que algumas ações rendem frutos aqui e ali, a pobreza flagela um sem-número de pessoas, colocando-as à mercê da pobreza. Enquanto comemoramos a evolução da Ferradura Mirim, nos deparamos com o surgimento da favela do Comendador (situada às margens da avenida Comendador José da Silva Martha) ou com o reaparecimento de barracos no Jardim Flórida, onde havíamos conseguido erradicar a favela. Não temos como combater o problema à altura, porque a situação econômica do País está contra nós. Também não podemos agir contra essas pessoas, determinando que não façam barracos ou que os desocupem. É uma situação realmente ingrata, lamenta Brito, agravando que Bauru revela uma certa tendência à favelização.
Comparada com municípios do mesmo porte, como Limeira, Rio Claro, Presidente Prudente, São José do Rio Preto e Marília, a cidade apresenta um cinturão de pobreza maior. As razões talvez estejam arraigadas em circunstâncias do passado, como o próprio anúncio do projeto de desfavelamento. Na época em foi implantado, muitos sem-teto da região e da mais diversas partes do Estado e País vieram em busca da casa própria, elevando o índice de favelados.
Soma-se a esse fato a construção do Complexo Penitenciário, que trouxe para Bauru muitas famílias de presidiários. Estima-se que 20% das famílias dos aproximados 860 detentos transferidos para cá tenham se fixado na região periférica da cidade, notadamente no núcleo Fortunato Rocha Lima, então recém-construído para abrigar os moradores das favelas locais. Hoje, por sinal, acredita-se que a maioria dos moradores do núcleo não seja constituída dos titulares originais com direito a ocupar as moradias.
A hospitalidade do povo bauruense seria mais um atrativo para os migrantes. Nossa população tem a característica de receber bem e de manter programas de auxílio, como as casas de sopa. Isso, sem dúvida, chama a atenção de quem está passando dificuldades. E é o tipo de coisa que tem propaganda gratuita. Um vai falando para o outro que aqui é bom e assim a população miserável aumenta, observou Brito.
Embora imprescindível em termos de planejamento urbano, Bauru não possui qualquer expediente para medir o índice de migração. A grosso modo, sabe-se que boa parte da população carente veio de fora, mas os números e as razões disso são oficialmente desconhecidos.
O histórico das favelas locais é outro dado perdido. Levantamentos feitos pela extinta Secretaria de Projetos Comunitários (Seprocom) teriam sumido dos arquivos da Prefeitura durante a transição dos governos Izzo Filho e Nilson Costa.
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