Na década de 20, quando Kenjiro Sato (verdadeiro nome de Nenpuku Sato) desembarcou no Brasil, trouxe com ele muitos sonhos. Um deles era de difundir o haicai (poemas-pílulas japoneses). Para escrever seus textos, usava o único recurso que tinha na época: uma caneta e um bloquinho de anotações.
Várias décadas depois, o avanço tecnológico permitiu que houvesse um meio mais rápido de divulgação do haicai: a Internet. Quem quiser conhecer alguns dos versos e também a vida do poeta, pode acessar o site www.nenpukusato.hpg.com.br/html, elaborado pela estudante de Jornalismo da Universidade do Sagrado Coração (USC) Verena Fornetti. A paixão de Verena pelo Japão vai além da literatura. Durante dois anos e meio, ela estudou a língua japonesa e também se debruçou sobre aspectos da cultura oriental.
Quando conheceu o haicai, o interesse veio logo. Conversou com familiares de Nenpuku Sato, leu o livro Trilha Forrada de Folhas - Nenpuku Sato, Um Mestre do Haicai no Brasil (seleção, tradução e ensaio: Maurício Arruda Mendonça, Edições Ciência do Ocidente), pesquisou sobre teoria literária e transformou o conhecimento adquirido no site.
Obra
De acordo com o Mini Dicionário Luft (Scipione, 1991), haicai é um pequeno poema japonês de três versos (dois pentassílabos e um, o segundo, heptassílabo). Porém, Verena prefere uma outra definição, de R.H.Blyth, para quem a friagem de um dia frio, o calor de um dia quente, a lisura de uma pedra, a brancura de uma gaivota, a lonjura das montanhas distantes, a pequenez de uma florzinha, a umidade de uma estação chuvosa... Estas coisas sem qualquer pensamento ou emoção ou beleza ou desejo é haicai.
Muito mais que a métrica pré-estabecelida e a ausência de título e rimas, é a postura quase zen-budista diante da natureza, ou seja, a essência do haicai. O chamado kigô, elemento que faz menção a uma das estações do ano, é uma das peças-chaves para a compreensão do poema e revela toda a transitoriedade expressa por ele. Não é à toa que é comparado a uma fotografia do momento, pintando imagens com palavras, explica.
Os haicais de Nenpuku Sato, apesar de escritos em japonês, retratam temas brasileiros, como o plantio do algodão, a figura do negro, a terra e a mata. Ele deixou mais de 6 mil discípulos, que até hoje mantêm viva a cultura do haicai em cidades como Bauru, Assis e São Paulo. Em vida, editou dois livros, ambos no país de origem. Nenpuku-Kusho n.º 1 e Nenpuku-Kusho n.º 2, publicados, respectivamente, em 1953 e 1961. Em 1999, 20 anos depois de sua morte, sua poesia recebeu tradução. O estudioso Maurício Arruda Mendonça selecionou, traduziu e estudou a vida e obra de Sato. O resultado é o livro Trilha Forrada de Folhas - Nenpuku Sato, Um Mestre do Haicai no Brasil.
Vida
A história de Sato é bastante parecida com a de milhões de japoneses que imigraram ao Brasil. Com a crise que assolava o Japão nos anos 20, o poeta deixou sua terra natal, acompanhado de seus pais, irmãos e esposa. Aos 29 anos, desembarcou no porto de Santos e seguiu para Mirandópolis, no Interior de São Paulo. Aprendeu a semear a terra, essa mesma terra que lhe serviu de inspiração em quase todos os poemas e com quem estabeleceu uma relação especial. Ao sair do Japão, levou a missão dada por seu professor Takahama Kyoshi, expressa na poesia: lavrando a terra plante também um país de haicai.
Um de seus filhos conta que o mestre costumava interromper o trabalho na roça, encostar a cabeça na enxada, tirar o bloquinho de anotações do bolso e escrever um poema, diz Verena no site. Apesar da intensa atividade poética, só depois de 27 anos de sua chegada ao Brasil deixou a profissão de lavrador para cumprir efetivamente a tarefa que trouxe consigo. Foi quando mudou-se para Bauru, onde passou a se dedicar à difusão e ao ensino do haicai, completa.