Somos dos que acreditam que o mundo contemporâneo, a par dos avanços indiscutíveis e admiráveis nos domínios da Ciência e da Tecnologia, apresenta um indisfarçável desequilíbrio entre aqueles avanços e os que dizem respeito aos valores espirituais, de cujos valores dependerão, indiscutivelmente, os resultados dos avanços a que nos estamos referindo. Sim; porque a Ciência, como a Tecnologia são, em si mesmas, neutras ou amorais, meros instrumentos ou ferramentas a serem empregados pelos homens na conformidade dos valores a que adiram as suas consciências. É claro que tais valores, tais como concebidos nos fundamentos da cultura e da civilização a que continuamos a pertencer, não desapareceram. O problema está no fato de que os poderes dominantes, longe de, realmente, prestigiá-los e promovê-los vêm, por mil modos, desprezando-os em favor do mais evidente e mais impudente egoísmo. Vem sendo assim no âmbito interno das sociedades nacionais como, no âmbito internacional, no relacionamento entre as nações, marcado pela prevalência, a cada dia mais ostensiva, da lei do mais forte. A Democracia, de que tanto se ouve falar em sentido exaltador, não é a que corresponde ao ideal democrático, mas às formas que, a partir sobretudo do pensamento de Locke e de Rousseau, no fundo tão semelhantes, têm sido propostas, ou impostas, sob a alegação de que visam conquistá-lo. Como tais formas não têm compromisso com os reais fundamentos da cultura a que pertencemos, as realidades que engendram são as que aí estão, diante dos olhos de todos. Realidades confrangedoras que ensejam, como há poucos dias tivemos a oportunidade de ouvir de um humorista, que a nós, no Brasil, faltam-nos, apenas, ciclones, furacões, terremotos e governantes gays, para sermos promovidos ao tão decantado 1.º Mundo. Haverá, então, saída e, se há, em que poderá consistir ela?
Segundo a linha de raciocínio que estamos adotando e oferecendo à consideração pela inteligência dos que nos honram com a sua leitura, a resposta sobre o que, realmente, convém ao ser humano, deve partir da concepção que dele tenhamos. Segundo as nossas raízes culturais, nós somos dualidades de corpo e espírito, o primeiro de duração efêmera e o segundo de duração eterna. Ainda segundo as nossas raízes culturais, a existência que nos aguarda na eternidade depende da maneira pela qual façamos uso do nosso livre arbítrio enquanto vivemos no mundo de que somos parte. Segundo as nossas raízes, pois, devemos privilegiar e pautar as nossas condutas, na conformidade dos valores que ela recomenda. E estes, foram desconsiderados pelo teor inteiramente laico que passou a prevalecer em todas as Constituições dos Estados modernos, ditos democráticos. E, repare o leitor, não estamos nos referindo a opiniões nossas, aliás tão irrelevantes; estamos falando de fatos. Se a natureza das nossas raízes são fantasiosas, ou não, esta já é uma outra questão. O fato é que elas nos descrevem segundo aquela dualidade a que nos referimos, e afirma a vinculação do nosso destino na eternidade, na conformidade que registramos linhas acima. E é factual, também, o caráter laico - para dizer o mínimo - impresso às formas e mecanismos institucionais que, deliberadamente, tantos insistem em confundir com o ideal democrático propriamente dito. O resultado da confusão é este descompasso absurdo entre os avanços da Ciência e da Tecnologia e as brutalidades sem precedentes a que vimos assistindo todos os dias, a par da degradação e corrupção que grassam, cada vez mais desenfreadas, como grassaram, no passado nas grandes civilizações que nos precederam mas, note-se - o que também é factual -, nos períodos de suas decadências. São estes, temas que deixamos à reflexão do leitor, e à atenção do mais íntimo de sua consciência.
(*) Jorge Boaventura Home-page: www.jorgeboaventura.jor.brE-mail: boaventura@jorgeboaventura.jor.br