Geral

Fogo no circo

(*) Kleber Boelter
| Tempo de leitura: 3 min

Estou convencido de que a comemoração nacional quase unânime pela contratação de Luiz Felipe Scolari para o comando da Seleção Brasileira vai muito além do legítimo desejo de que voltemos a vencer adversários historicamente medíocres. É, também, um grito uníssono em defesa da competência. E uma demonstração do esgotamento pela repetição de palhaçadas.

Talvez o início de nossa fase circense seja mais antigo, mas o que me marcou foi uma frase indignada de Zagalo: Os adversários não respeitam mais a camiseta da Seleção Brasileira. E disse isso não num tom de mea-culpa pelo desempenho medíocre do time que comandava, mas como uma acusação aos adversários pelo desaforo de vencerem o Brasil.

E assim, pulando da seleção-só-camiseta, do futebol-arte e das bailarinas, tivemos uma sucessão de aparatos grandiloqüentes, hotéis cinco estrelas, contratos milionários com a Nike, jogadores com apartamentos no pulso, ternos italianos, CPIs. Como resultado, um futebol medíocre, o fiasco deprimente da final da Copa do Mundo na França e a pior campanha de toda a história nessas eliminatórias de 2001. Esperávamos, com Felipão, não apenas um treinador sério e um time competitivo, mas também o fim das macaquices. Mas ainda não foi dessa vez.

O que faria um time sério se um jogador se machucasse e não pudesse participar de um jogo? Manda-se o sujeito para casa se tratar, chama-se seu substituto e se lasca: é tudo contigo!. Rei morto, Rei posto. Mas na Seleção Brasileira, não. Mantém-se o manco na delegação e arrasta-se sua sombra para cima e para baixo pelos hotéis cinco estrelas como um fantasma. Só falta o picadeiro, não é?

Pois não falta, não. Ele foi armado para outra jogada de marketing, só que essa veio de helicóptero e teve assento cativo na cabina VIP da Rede Globo. Já adivinharam. Estou falando de Ronaldo Lazario, aquele do joelho bichado e das convulsões na França. Juro, nada contra ele. Mas isso lá é exemplo motivador numa hora dessas? E aí quando se vê o rapaz, depois de toda aquela fanfarra na mídia, surgir com uns fones de ouvido que parecem as orelhas do Dumbo filosofando com o Galvão Bueno na cabina da Globo, percebe-se claramente a ópera bufa que armaram para cima de nós. Se ao menos o time vencesse, poderíamos rir dessa palhaçada toda. Mas como vencer se aquilo que interessa, o futebol competitivo, prece vir em último lugar nas prioridades da CBF?

É claro que não podemos avaliar o trabalho de Scolari pela derrota para o Uruguai no domingo. Foi apenas o primeiro jogo. Mas é preocupante ver o técnico da seleção aparecendo em tudo que é programa de fofoca na televisão às vésperas de uma partida tão importante, ao invés de estar se dedicando exclusivamente à equipe.

Talvez essas últimas piruetas na corda bamba sejam apenas reminiscências histriônicas provocadas pela maldita lei da inércia. Acabou-se com o terno-e-gravata à beira do campo, mas ainda resiste o bufão nos bastidores. É sempre a mesma história. Com a corda no pescoço, joga-se o palhaço na jaula do leão. Ou o Felipão bota fogo no circo ou ele será o próximo jantar.

(*) O autor, Kleber Boelter é, empresário e escritor

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