Geral

Fome, dignidade e justiça

(*) Valmor Bolan
| Tempo de leitura: 2 min

O Brasil perdeu, no dia 24 de junho, o seu maior geógrafo: Milton Santos. Mais do que um geógrafo, Milton Santos foi um pensador do Brasil, especialmente dos grandes problemas urbanos da atualidade, voltado para estudos da geografia humana, dando notáveis contribuições para a compreensão da complexa realidade atual da globalização. Segundo Ubiratan Brasil, em reportagem de O Estado de São Paulo, Em vez de fazer uma mera descrição de relevos, Milton Santos passou a analisar as conseqüências que a economia, a política, o desenvolvimento urbano, a estrutura agrária e os problemas sociais têm na vida cotidiana. Era interessado no ser humano, e buscou refletir as circunstâncias que condicionam as populações à um estilo de vida que ameaça a dignidade da pessoa humana, em vários aspectos. Santos sonhava com cidades dotadas de infra-estrutura capaz de atender as necessidades básicas de todos os cidadãos.

Para o grande geólogo, o que destrói a experiência humana é a civilização que nós adotamos, pois a cidade aparece como manifestação representativa dela. Milton Santos deu continuidade, digamos assim, ao trabalho em defesa da vida iniciado por Josué de Castro, autor de Geografia Humana, e que comprovou que a fome é conseqüência de ações humanas injustas. Milton Santos também concordava com Castro de que a fome pode ser debelada no mundo, se houver adoção de políticas sociais não comprometidas com a lógica perversa de um capitalismo que não coloca a promoção da pessoa humana como prioridade, mas apenas a produtividade.

Milton Santos viveu o período histórico do boom das grandes cidades. Hoje, mais de 50% de toda população mundial vive em megas centros urbanos, inseridas em contextos de grandes contingências, causando apreensões de toda espécie; insegurança, violência crescente, falta de espaços verdes, trânsito caótico, verticalização das habitações. A civilização tem se tornado cada vez mais desumana, não oferecendo aquilo que a pessoa humana necessita para verdadeiramente se realizar integralmente.

A geografia humana, no melhor enfoque orteguiano, estuda a relação do homem com sua circunstância, procurando entender os condicionamentos do ambiente não como fatores deterministas, mas como desafios que exigem respostas de superação, como propunha, por exemplo, Arnold Toynbee. Milton Santos fez parte daquele grupo de pensadores não céticos, que manteve a esperança no ser humano e na sua capacidade de transformar a realidade, intervindo de forma inteligente para assegurar uma vida saudável para todos. Foi um revolucionário, na mais bonita concepção da palavra, como bem definiu a geógrafa e professora da USP, Maria Adélia de Souza.

(*) Valmor Bolan é doutor e em Sociologia. E-mail: valmorbolan@uol.com.br

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