Os ônibus não circularam das 10h30 às 16h20, causando muitos transtornos. Novas paralisações não estão descartadas
Setenta mil pessoas sem transporte, pontos de táxis vazios, preço inflacionado por um corrida de mototáxi, atrasos, transtornos, reclamações. Este foi o saldo da paralisação dos ônibus circulares coletivos iniciada na manhã de ontem em protesto às infrutíferas negociações entre trabalhadores do setor e patrões. Foram seis horas - das 10h30 às 16h20 - ininterruptas de suspensão total do serviço, com uma das adesões mais efetivas da categoria em toda a história do sistema de transporte do município. E para quem foi pego de surpresa no dia de ontem, um aviso: outras paralisações poderão ocorrer na semana que vem caso o impasse entre funcionários e empregadores não seja resolvido.
Segundo a direção do Sindicato dos Condutores de Veículos Rodoviários (Sindtran), a paralisação não estava planejada. A decisão de parar foi tomada na manhã de ontem, durante uma reunião convocada para informarmos os trabalhadores sobre o andamento das negociações do acordo coletivo. Eles optaram por uma protesto mais incisivo, uma vez que as paralisações-relâmpago realizadas ao longo da semana não surtiram efeito, justificou Elias Pinheiro da Silva, presidente da entidade.
A deliberação foi comunicada aos motoristas e cobradores na avenida Rodrigues Alves, passagem obrigatória de todos os coletivos. Os funcionários foram convidados a deixar os ônibus e, após meia hora, poucos ainda circulavam. A adesão total foi constatada no período da tarde, quando carros e motos aproveitavam todas as pistas da avenida - momento raríssimo no principal corredor de ônibus da cidade.
Mesmo sabendo da paralisação, muita gente insistiu em permanecer nos pontos com a esperança que o protesto acabasse logo. Para quem dependia de horário, não houve alternativa senão apelar para os táxis e mototáxis, os grandes felizardos do dia. Conseguir uma corrida ontem estava mais difícil do que ônibus circular em fim-de-semana. Os taxistas se contentaram com o giro de clientes, mas os mototaxistas exploraram: o preço normal de R$ 3,00 saltou para R$ 5,00 sem maiores justificativas.
As coisas só voltaram ao normal já quase no fim do expediente comercial. Em respeito à comunidade usuária e num gesto claro de boa vontade de negociar, decidimos retomar as atividades, comunicou Silva, informando também o agendamento de uma reunião entre as partes para a próxima terça-feira, às 10 horas, no Ministério do Trabalho.
Nos bastidores, sabe-se que o fim da paralisação não ocorreu apenas por decisão livre e espontânea do Sindtran. Na verdade, a Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural de Bauru (Emdurb), responsável pela manutenção do serviço de transporte, solicitou a intervenção da Subdelegacia do Trabalho, no sentido de obter apoio policial para garantir uma circulação mínima de ônibus - por se tratar de um serviço essencial, pelo menos 25% devem ser mantidos.
Os fiscais do Trabalho estiveram na avenida Rodrigues Alves por um período de 15 minutos, tempo suficiente para atestarem a paralisação geral dos ônibus. Imediatamente após, o órgão expediu uma certidão autorizando a ação policial. Pouco depois, coincidentemente, o protesto foi suspenso.
A situação vivida ontem, no entanto, pode se repetir a partir da próxima semana, mais precisamente após a reunião de terça-feira, quando trabalhadores e patrões tentarão, finalmente, chegar a um acordo. Ambas as partes se dizem abertas à negociação, mas o Sindtran avisa desde já não abre mão de algumas reivindicações. O reajuste do piso para motoristas e cobradores - eles pedem, respectivamente, R$ 729,30 e R$ 510,51, num aumento real de 10% que também seria extensivo aos funcionários administrativos e de manutenção -, o tíquete alimentação no valor de R$ 100,00 - das três empresas, apenas a ECCB concede o benefício no valor de R$ 80,00 - e a jornada de sete horas com pegada única são inegociáveis. Já os 15% a título de Participação nos Lucros e Resultados e o plano de saúde financiado em 70% pelas empresas seriam passíveis de novas propostas.
(*) Polícia nas ruas
O efetivo do Pelotão de Trânsito e da 1.ª Cia da PM foi para as ruas centrais da cidade para garantir o direito dos trabalhadores que queriam paralisar e também daqueles que pretendiam continuar trabalhando, frisou o major Carlos Alberto Fantini, comandante-interino do 4.º Batalhão da Polícia Militar. Segundo ele, houve pequenos tumultos, mas nada que merecesse muita preocupação. Ele garantiu que a PM está preparada para acompanhar o movimento caso haja outras paralisações.(*) Rita de Cássia Cornélio
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