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Filhos de trabalhadores sem-terra preferem continuar a viver no campo a ir para a cidade e esquecer a luta para a conquista da terra.

Daniela Bochembuzo
| Tempo de leitura: 4 min

Apesar da vida sem luxos, filhos de membros do acampamento do MST não pensam em desistir da luta e ir para cidade

No acampamento do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) na Fazenda Santo Antônio, em Brasília Paulista, distrito de Piratininga, o dia começa cedo e não poupa crianças e adolescentes. Logo às 5h30, os cerca de 30 sem-terrinha, como são chamados os filhos dos acampados, já aguardam a chegada do ônibus municipal que os levará à escola. É lá que enfrentam os primeiros choques a partir de situações de preconceito, as quais, garantem, tiram de letra.

Eliete Virgínia dos Santos, 14 anos, estudante da 8.ª série, conta que o preconceito aparece em forma de pergunta. Um dia, me perguntaram se sem-terra tomava banho, você acha?, questiona. Outra, relatada por Márcio José dos Santos, 16 anos, aluno de 1.º colegial, indica, de maneira mais contundente, como o MST é visto. Me perguntaram se, durante uma invasão, já tinha matado um homem, lembra.

Acalentando o sonho de freqüentar colégio técnico agrícola, Márcio já perdeu a conta de quantas vezes seus colegas de classe perguntaram se era comunista. Devolvo a pergunta com outra: - você sabe o que é comunismo?, diz o estudante. Tanta desenvoltura é fruto das reuniões internas do acampamento, que envolvem membros de todas as idades para discutir e refletir sobre conjuntura, direitos humanos, história, economia e questões agrárias, como o cooperativismo.

As reuniões, comuns a todo acampamento ou assentamento do MST, leva os jovens sem-terrinha a um nível de politização acima da média adolescente, e que resulta na crença de que a educação e o trabalho são valores fundamentais e a semente para a colheita de dias melhores para o homem do campo.

A politização permite, ainda, que os sem-terrinha trabalhem a revolta contra a vida sem luxo, o preconceito, a concentração de renda e as injustiças, transformando-a em força para continuar lutando pela conquista da terra. Não ficamos revoltados com o preconceito porque, na maioria das vezes, essas pessoas não têm consciência sobre a sua própria situação, que pode ser pior do que a nossa, afirma Márcio.

Filho de migrantes da zona rural e ex-favelado em Ribeirão Preto, Rodrigo da Silva Rodrigues, 16 anos, estudante de 1.º colegial, não tem saudades da vida da cidade, que considera muito violenta. Para ele, o único problema dos acampamentos é quando ocorrem ações de despejo. O duro é a pressão psicológica da polícia, que chega agitando e obriga a gente a ficar no pavor durante a madrugada, diz.

Fora isso, Rodrigo releva as fossas coletivas, a lavagem de roupa no córrego, a vida sob teto de lona, o chão batido e a freqüente falta de comida. Aqui tenho sossego e amigos, que são como irmãos. Não tem gente drogada e mortes, como ocorria sempre na favela, compara. Por tudo isso é que, como o colega, Eliete encara com tranqüilidade o dia-a-dia do acampamento e planeja o futuro com uma única certeza: nosso lugar é o campo, garante, com um sorriso sincero nos lábios.

No acampamento, tarefas são divididas

A vida dos sem-terrinha de Brasília Paulista não se resume a freqüentar a escola e brincar. Todos, sem exceção, participam de atividades dentro do acampamento, como parte do espírito de coletividade que permeia os ideais do MST. As tarefas são divididas entre setores (educação, saúde e higiene, pastoral, negociação externa, almoxarifado, trabalho, infra-estrutura, entre outros). Além disso, dedicam parte do tempo ao aprendizado de técnicas de plantio.Aprender como plantar é importante para que nossos jovens entendam que fazem parte do processo e do acampamento, para que se conscientizem sobre sua função na sociedade, explica Dílson Peixoto, um dos coordenadores do acampamento e pai de Felipe, 10 anos.A educação e o trabalho, aponta Peixoto, são os meios que os pais participantes do MST encontram para ensinar aos filhos que a figura do homem do campo é mais ampla do que a veiculada pela televisão.

Hoje, a TV faz a apologia errada do homem do campo, reduzindo-o a cowboy ou a caipira, no sentido de atrasado. Nossa raiz é outra: nós plantamos, somos parceiros da terra, que não é nossa propriedade, por isso não a envenenamos, sintetiza o coordenador do acampamento.

Consciente de seu papel social, a sem-terrinha Eliete Virgínia dos Santos faz questão de ir bem na escola e colocar seu ponto-de-vista em discussões escolares sobre política. Por meio da educação, acredita, pode contribuir com mais efetividade nas tarefas e reuniões do acampamento. Recentemente, participou de um encontro regional de sem-terrinha. Estou sempre disposta, garante.

Aline Maria, 22 anos, que concluiu o ensino médio, também faz questão de contribuir para o desenvolvimento do acampamento. Por isso, há um ano, se tornou monitora voluntária do curso de alfabetização de jovens e adultos mantido pelo MST na Fazenda Santo Antônio.

Atualmente, 22 acampados, com idades entre 14 e 50 anos, participam das aulas, realizadas de segunda a sexta-feira num galpão construído na fazenda. Gosto muito de ensinar e tento sempre melhorar a forma de passar as lições. É uma responsabilidade muito grande, define.

Apesar de todas as dificuldades, Aline afirma que a luta do MST vale a pena. Na cidade, não temos alternativa de trabalho. A vida no acampamento também não é fácil, mas temos que superar. Estamos plantando um sonho, cujo sacrifício se reverterá no valor da terra. A terra é bênção, diz.

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