Geral

Mídia, mulheres e racismo

(*) Iara Bernardi
| Tempo de leitura: 4 min

A comunicação, em todas as democracias avançadas do mundo, é assunto da maior relevância pelas óbvias implicações políticas e sociais que engendra. Um exemplo recente pôde ser observado na Itália, onde surgiu um enorme debate sobre a concentração da mídia após a eleição do atual primeiro ministro, Silvio Berlusconi, que é proprietário da maior rede privada de comunicações daquele país. A principal crítica que os intelectuais, dentre eles Umberto Eco, fizeram à eleição de Berlusconi, é que ele passaria a dominar toda a comunicação italiana, pois já era dono das maiores emissoras privadas e iria controlar o conglomerado estatal RAI. Ou seja, na Itália, grande parte da sociedade se colocou francamente contra o monopólio nas comunicações e discutiu o assunto ardorosamente.

No Brasil, temos um sistema altamente concentrado sem que, ao contrário do que ocorreu entre os italianos, a sociedade se levante para protestar. É de se registrar que a Constituição e o Código Brasileiro de Telecomunicações, de 1961, vedam a que haja monopólio. Porém, empresas de comunicação são registradas em nome de parentes e obtém-se uma rede de TV ou rádio sem maiores problemas. Nos Estados Unidos é proibido a um mesmo grupo a propriedade de uma estação de TV se ele já for dono de um jornal ou rádio. Aqui isto não chegou sequer a ser cogitado e rapidamente surgiram verdadeiros impérios de comunicação em todos os segmentos de mídia. Quanto às conseqüências dessa concentração no campo político, o país já teve vários exemplos, destacando-se a sustentação ao regime militar feito pela grande imprensa e a eleição de Fernando Collor de Mello à Presidência da República em 1989.

Contudo, os resultados do monopólio e da falta de controle social sobre os meios de comunicação na área do comportamento ainda são pouco debatidas. Não que os estudiosos desconheçam o poder da mídia eletrônica, em especial o da televisão, mas é que, pela dimensão do problema, o que tem sido feito é um pingo no oceano. Não é nenhum exagero afirmar que a realidade cotidiana brasileira é moldada pelas telas de TV. Ao lado de um grande aparato tecnológico - nossas redes de televisão estão entre as melhores do mundo -, temos uma população na sua maioria com baixa escolaridade, sem filtros necessários sobre o que passa na telinha.Vamos a alguns exemplos da influência da TV. Nas relações e gêneros, é lugar comum afirmar que o Brasil é um país machista. Porém, quanto desse machismo não se deve à imagem que a TV projeta da mulher, a qual, quase sempre, ou é dona de casa ou uma bunda que requebra?

Do mesmo modo, é senso comum dizer que no Brasil existe um grande racismo disfarçado. Quanto desse racismo não é reforçado pela forma com que os negros ainda são retratados nas novelas e nas propagandas da televisão? Não se chega ao ponto de se exigir que se coloquem atores negros nos papéis principais, mas que, ao menos, não os coloquem apenas no papel de serviçais ou de escravos em novelas de época. Quanto à infância, sem falar do conteúdo erótico de muitos programas que passam em horário inadequado, inúmeros pais reclamam do consumismo dos filhos. Pois basta assistir um pouco dos programas infantis para perceber a falta de critérios educativos em favor dos comerciais. Tudo é vendido e empurrado para as crianças comprarem. A veiculação de propaganda de brinquedos e produtos infantis nos intervalos de programas destinados a crianças é vedada na Inglaterra. Por que não se pensar em algo assim também em nosso País?

Recentemente, o Ministério das Comunicações colocou em sua página na Internet a minuta de um projeto a ser enviado ao Congresso Nacional no segundo semestre, que muda toda a legislação sobre radiodifusão no país. O que aparentemente significa um passo importante para mudanças necessárias, tem que ser visto com cautela. A imprensa registrou que o projeto aumenta a concentração de emissoras e que o ministro Pimenta da Veiga é provável candidato a Presidente da República em 2002.

Vê-se, portanto, que um debate que deveria ser primordial e conduzido com seriedade, está maculado por intenções políticas de curto prazo. Mais uma vez corremos o risco de ficar reféns do casuísmo.

(*) Iara Bernardi é deputada federal (PT/SP), Vice-líder do PT na Câmara dos Deputados e 2.ª Vice-presidente Nacional do PT

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