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Mulher ainda sofre imposições sociais

Fabiano Alcantara
| Tempo de leitura: 6 min

Para a pesquisadora Sandra Lourenço, a sociedade pressiona homens e mulheres a assumir em papéis determinados

Mesmo quando trabalha, a mulher encontra dificuldades em expandir o ambiente doméstico, por este motivo, algumas profissões seriam mais adequadas para elas. A afirmação é da pesquisadora e assistente social Sandra Lourenço, que com a intenção de combater a desinformação, que até hoje provoca absurdos como a violência doméstica, desenvolveu a tese de mestrado Gênero: sua Expressão no Ensino do Serviço Social.

De acordo com ela, o estudo da questão do gênero, a relação entre homens e mulheres, ajudaria os profissionais de Serviço Social a se relacionar melhor com o trabalho. Sandra, que atua no Centro Integrado de Atendimento à Mulher (Ciam), um órgão municipal, afirma que a cada dia, oito mulheres prestam queixas de violência doméstica em Bauru.

Para a pesquisadora e professora da Instituição Toledo de Ensino (ITE), a sociedade pressiona homens e mulheres a assumir papéis determinados. Uma construção que dificilmente é rompida e até hoje não foi amplamente assimilada por quem é profissional de Serviços Sociais.

Leia a seguir a entrevista concedida, na semana passada, no Ciam, em que Sandra comenta sua pesquisa, defendida recentemente na PUC-SP e a situação da mulher hoje. Jornal da Cidade - O que é gênero? Sandra Lourenço - A categoria de gênero faz parte do ser social e é construída na relação entre o homem e a mulher, gerando uma série de conflitos, desigualdades, violência. Por conta de vivermos em um sistema patriarcal, racista e capitalista. Estes três eixos constituem um sistema de exploração e dominação da sociedade em geral.

Gênero seria a relação existente entre o homem e a mulher. Todos nós temos um lado masculino e um feminino. Entendemos por masculino o campo da administração, do planejamento, da racionalização, da otimização. Por feminino entendemos o campo da sensibilidade, da emoção, do feeling. Só que todos nós seres humanos temos isso, independente do sexo.

O que acontece é que as mulheres são muito mais estimuladas para desenvolver o lado feminino que o homem. Ainda hoje as meninas brincam com bonecas, fogãozinho. No caso dos meninos, quando você pensa em um presente é bola, carro, outras coisas.

JC - Qual foi o objetivo da sua pesquisa?Sandra - Foi identificar como vem sendo discutida a categoria gênero nos cursos de Serviço Social no Centro-Oeste Paulista. Então, eu estudei o curso de Bauru, da Instituição Toledo de Ensino (ITE), o curso de Botucatu e de Lins.

JC - O que você encontrou?Sandra - Uma das questões que eu pude concluir é que esta discussão, do sistema de dominação, de exploração, a partir da análise de gênero, especialmente no Serviço Social, que é uma profissão eminentemente feminina, não está claro. Esta discussão não existe com densidade teórica e muitas destas pessoas confundem gênero com feminismo.

Jogando para este feminismo toda uma série de estereótipos. Considerando uma coisa de mulher, uma briga que não leva a nenhum lugar. Enfim, se reportando ao feminismo mais ortodoxo, da mulher que não gosta de homem e, assim, minimizando uma discussão que não é uma briga entre homem e mulher. Não é uma questão de sexismo, mas algo mais abrangente, que passa pela questão cultural, de relações sociais mesmo.

JC - Qual é a relação disto com a formação dos profissionais de Serviço Social?Sandra - No atendimento à população em geral, por exemplo, as mulheres muitas vezes são poliqueixosas nos núcleos de saúde. Reclamam de várias queixas e não se identifica nada e, muitas vezes, isso está relacionado com a questão cultural dela, de não saber lidar com o corpo, não saber cuidar do corpo e enfrentar diversos preconceitos.

A questão de trabalhar com homossexuais, como podemos desenvolver uma intervenção sabendo entender e contextualizar esta situação. Ou, por exemplo, na elaboração de projetos de geração de renda. Geralmente encontramos os projetos voltados para a mulher se reportando a extensão do lar. Muitas vezes vamos ver corte e costura, culinária. Fica determinado para a mulher o espaço doméstico até na elaboração de projetos sociais. A mesma coisa acontece com o homem. Isso tudo é uma forma de compreender gênero.

JC - Que trabalho você desenvolve no Centro Integrado de Atendimento à Mulher (Ciam)?Sandra - O Ciam está vinculado ao Gabinete da Prefeitura e existe desde 1995. Aqui temos trabalho interdisciplinar, em três setores: psicologia, setor jurídico e o serviço social. O objetivo do Ciam é atender mulheres vítimas de violência doméstica, especialmente a cometida pelo marido, companheiro, namorado.

Nós temos um dado bastante alarmante de oito mulheres que são violentadas por dia. Oito casos novos, que atendemos aqui no Ciam. E nós sabemos que são mulheres que conseguiram romper o espaço doméstico. Conseguiram pedir ajuda, porque ainda prevalece o pensamento de que briga de marido e mulher ninguém mete a colher.

Tantas outras passam pela mesma violência ou piores, casos de ameaça de morte, tentativa de homicídio e não conseguem romper, sair de casa. Isso acontece por medo, vergonha, por conta dos filhos, por conta das ameaças.

Aqui nós temos conseguido vários resultados positivos, de mulheres que conseguiram se fortalecer e elas mesmas enfrentar esta condição de violência. JC - O motivo da violência doméstica é a falta de informação?Sandra - Muitas mulheres não sabem que não são obrigadas a manter relação sexual com o marido, ela acha que por lei ela é obrigada. E não é, o sexo forçado caracteriza o estupro conjugal, que é crime.

Muitas mulheres se submetem por desconhecimento dos próprios direitos. Existem depoimentos de mulheres que sofrem violência por 30 anos, muitas vezes o marido dorme com uma faca em baixo do travesseiro. E ela acha que precisa manter o casamento porque ela ficaria mal falada. Isto em toda classe social.

JC - Existe relação da sua tese com o seu trabalho?Sandra - Totalmente, a minha dissertação de mestrado nasceu justamente do meu trabalho no Ciam. E também por eu ser docente da faculdade de Serviço Social. Enquanto assistente social, eu encontrei muita dificuldade teórica para iniciar um tipo de trabalho com mulheres vítima de violência.

Na minha formação de Serviço Social eu não tive contemplada esta questão de gênero, o que me causou dificuldades. Hoje, os novos assistentes sociais aqui de Bauru já estão saindo com esta bagagem, já se discute a questão.

JC - Existe discriminação nas faculdades?Sandra - Existe. Você pode pegar as profissões que são eminentemente femininas: Psicologia, Serviço Social, Enfermagem... e em uma sociedade patriarcal profissões de mulheres são menores. São áreas voltadas para a própria expansão do espaço doméstico. Isso provoca uma certa impossibilidade de você falar entre iguais.

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