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O motim acabou após a imprensa registrar marcas de supostas agressões em presos do "Cadeião" de Bauru. O carcereiro Fernando Rodrigues (centro) foi mantido como refém por 3 horas.

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 4 min

Um carcereiro foi mantido refém por três horas, ontem. Presos rebelados denunciaram que apanharam da Polícia

Os presos da Cadeia Pública de Bauru, o Cadeião, se rebelaram ontem pela manhã e mantiveram o carcereiro Fernando Rodrigues como refém durante três horas. Outros quatro presos também foram retidos no pátio. A rebelião terminou quando o promotor da Vara de Execuções Penais, Luiz Carlos Gonçalves Filho, permitiu que os presos mostrassem para a Imprensa marcas em seus corpos, segundo eles resultado de surras que alegam ter sofrido na última sexta-feira, após a tentativa de fuga.

Os rebelados exigiram também o compromisso de que não haveria represália pelo movimento de ontem. A superlotação de presos, conforme o JC informou na edição de sábado, é uma das causas da revolta dos detentos. O Cadeião, que tem capacidade para 36 detentos, abrigava, ontem, 174 homens.

O refém foi libertado sem nenhum ferimento, mas em estado de choque, por volta das 15 horas. Chorando muito, ele apenas balbuciou que não foi maltratado e que estava tudo bem. Segundo informações extra-oficiais, ele havia voltado ontem de uma licença médica originada por hipertensão arterial. Com ele, foram liberados os outros quatro presos.

A revolta dos presos, segundo informou o diretor do Cadeião, o delegado Roberto Cabral Medeiros, teve início por volta das 12 horas, quando o carcereiro Fernando entrou no pátio para recolher os detentos que tomavam banho de sol. Ele foi feito refém, assim como quatro outros presos que ocupam uma cela separada por responderem por crime mais leves, como não pagamento de pensão alimentícia.

Uma hora depois, o promotor compareceu à cadeia e teve início outra negociação, uma vez que, anteriormente, tanto a Polícia Civil quanto a Polícia Militar tentaram um acordo com os presos, mas não haviam obtido êxito. Os detentos queriam a presença do promotor ou juiz.

Ao representante do Ministério Público, os presos pediram a presença da Imprensa e reclamaram. Eles contaram que apanharam durante as duas revistas feitas na cadeia, na noite e madrugada de sexta-feira passada. Alguns presos se apresentaram mostrando hematomas no abdome e costas.

Nenhum dos presos se identificou, mas todos os seis integrantes da comissão de negociação queriam falar sobre as dificuldades que eles estariam passando no Cadeião. A cadeia está superlotada. Os policiais militares batem na gente. Nós queremos Justiça porque já estamos pagando pelo crime que cometemos, gritavam.

Um deles alegou que as doenças de pele proliferam no interior das celas. O banheiro não foi feito para acolher este tanto de gente. Todos nós estamos com micose e outras doenças de pele porque há muitos micróbios pelo chão, disse um deles. Outro rebelado disse que quando menor matou um policial e por isso foi perseguido até voltar para a cadeia. Eles não me deixaram em paz enquanto não me colocaram aqui de novo, disse.

O rapaz afirmou que está jurado de morte por policiais militares. Eles já prometeram que vão me matar, garante. Os rebelados pediram que os presos condenados fossem transferidos para amenizar o problema de superlotação. Estamos amontoados nas celas, alegaram.

A conversa com os repórteres durou pouco mais de 15 minutos. Os presos não queriam mostrar os rostos - usavam camisetas para encobrir os rostos. Eles prometeram libertar o refém depois de terem conversado com a Imprensa, porém quando a conversa acabou, queriam mudar de idéia. Queremos uma garantia de que não vamos apanhar depois que vocês saírem, disseram.

A garantia de que eles não iam apanhar foi dada pelo promotor, que ainda prometeu apurar a agressão. O diretor da cadeia, Roberto Cabral Medeiros, disse que acompanhou quase toda a revista de sexta-feira e que desconhecia as agressões. Depois da revista, houve agressão mútua entre eles. Eu acho que eles podem ter brigado entre eles, mas vamos apurar, disse o delegado.

O comandante interino do 4.º Batalhão da Polícia Militar Interior (BPMI-4), major Jorge Lelis Pinholi, garantiu que as acusações dos presos serão apuradas. Eles alegam que apanharam. Se isso realmente aconteceu, vamos apurar e punir os culpados. Se eles podem apontar os autores da agressão, ficará até mais fácil esclarecer, disse. No período em que ficaram soltos no pátio, os presos queimaram um colchão e tentaram fazer barulho, mas em nenhum momento a situação saiu do controle da polícia.

Carcereiros sob tensão

Os funcionários da Cadeia Pública de Bauru estão trabalhando num clima de muita tensão. O movimento dos presos - neste ano foram cinco tentativas de fuga e uma rebelião - causa estresse e coloca a saúde dos carcereiros e demais funcionários em risco.

O carcereiro Fernando Rodrigues, por exemplo, sofre de hipertensão e quando deixou a cadeia ontem foi atendido por médicos, por ter passado por momentos de muita tensão e medo, mesmo sabendo que os presos estavam desarmados.

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