A estação que já serviu de cenário para o filme de Carlos Reichenbach foi consumida parcialmente pelo fogo, ontem
Dois Córregos - Um incêndio, ontem à tarde, destruiu parcialmente a estação ferroviária de Dois Córregos. O local, considerado patrimônio histórico, já serviu de cenário para um longa-metragem nacional e agora tornou-se um amontoado de cinza e ferro retorcido; um retrato do descaso que as estações ferroviárias, de um modo geral, vêm sofrendo por parte da Rede Ferroviária Federal, a quem cabe a responsabilidade por esses imóveis.
O empresário Paulo Marmontel, dono de uma empresa de prestação de serviço, foi um dos primeiros a notar o incêndio. Segundo ele, o fogo teria começado dentro de uma sala onde estariam guardados vários livros e jornais antigos, às 14 horas, aproximadamente. Isso teria ajudado na rápida propagação do incêndio, que só foi controlado totalmente por volta das 16h30, com a ajuda de caminhões-pipas da Prefeitura, de usinas de álcool de Dois Córregos e de Barra Bonita e pelo Corpo de Bombeiros de Jaú.
O incêndio foi notado também, logo no início, por uma família que mora em frente à estação. Clorisbela de Oliveira era uma das mais abaladas com a destruição parcial do prédio histórico. Desde que nasceu, há 62 anos, ela mora na mesma casa e acompanhou durante todo esse tempo o dia-a-dia da estação. Eu pensei que a estação iria me ver morrer, mas sou eu que estou vendo ela morrer, lamenta.
Dona Bela, como é conhecida, não estava em casa na hora que o incêndio começou. Ele foi testemunhado pela filha Ísis Beatriz de Oliveira e pela amiga Rosemary Martins Peres, ambas registraram, em foto e vídeo, a agonia da estação, que já rodou o mundo nas cenas do filme Dois Córregos, lançado no início do ano passado. Segundo elas, logo após o início do incêndio dois homens teriam saído do local, correndo. No entanto, elas não teriam sido capaz de identificá-los.
Heusner Grael, do departamento de Turismo, foi categórico ao afirmar que o incêndio foi criminoso. Ele ressaltou que toda a rede elétrica do local estava cortada e, por isso, a possibilidade de um curto-circuito está descartada.
A estação ferroviária não possui vigilantes e o acesso é livre. Essa facilidade para entrar nas diversas salas do imóvel favorece a concentração de usuários de drogas e de andarilhos. Vizinhos afirmam que é bastante comum ouvir tiros na estação, durante a noite.
A Organização Não-Governamental (ONG) Terra Viva, presidida por Reinaldo Haddad, mostrou interessada em transformar o local em centro cultura, mas as negociações entre a Prefeitura e a Rede Ferroviária Federal - dona do imóvel - não teriam progredido.
Apesar do incêndio de ontem, Haddad ainda se mostra esperançoso em ver o projeto cultural fora do papel. Esse incêndio apenas aumentou nosso desafio, disse ele, observando os destroços da estação.
A polícia técnica de Jaú esteve no local e deve informar, dentro de pouco tempo, o que pode ter ocasionado o incêndio de ontem.