Geral

Salvação da lavoura

(*) Antonio Delfim Netto
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A agricultura poderá contribuir de forma importante no ano que vem para melhorar os índices de crescimento do PIB brasileiro, após quase uma década de resultados medíocres. Os agricultores já colheram este ano um volume bem maior do que no ano passado, o que deverá influir positivamente nas intenções de plantio das safras do próximo verão. É verdade que a produção esteve bastante concentrada em dois produtos, soja e milho, mas o que importa é que trouxe mais renda ao setor e vai ajudá-lo a superar alguns dos problemas que se acumularam nos últimos anos, quando a escassez de crédito e as altas taxas de juro tornaram quase impossível o trabalho no campo.

Houve uma mudança importante na postura do governo em relação à agricultura. O plano de safra foi anunciado em seu devido tempo, no dia 3 de julho, pelo presidente da República, Fernando Henrique, com a definição de recursos para o financiamento do plantio num montante expressivo, de quase R$ 15 bilhões. Pode não ser tudo o que a agricultura necessita, mas é um grande avanço, porque significa a quebra da resistência do setor financeiro do governo que há oito anos negaceia recursos à produção. O ministro da Agricultura, Pratini de Moraes, convenceu o presidente que o suporte financeiro ao setor, tornado disponível no momento certo, viabilizará a meta de produção de 100 milhões de toneladas de grãos. E que é um falso dilema, o receio de que não existirá demanda externa capaz de absorver o aumento da oferta de grãos, o que obrigaria a Fazenda a mobilizar vultosos recursos para a compra dos excedentes.

Se insistirmos em ampliar a produção de soja e algodão, por exemplo, não tenho dúvidas de que vamos exportar tudo aquilo que exceder o consumo interno. Se aumentarmos a produção de milho, reduziremos dramaticamente as importações e teremos um duplo efeito positivo sobre a balança comercial. Nunca houve problema para exportar a soja brasileira; o máximo que pode acontecer é que os preços cedam um pouco, criando na realidade um problema para o Tesouro americano que terá que aumentar os subsídios aos seus produtores de soja. Eles têm todo o suporte de seu governo, sendo compensados quando os preços caem e são pagos até para deixar de plantar quando é necessário reduzir os estoques. Já o nosso Ministério da Fazenda enxerga na produção agrícola um mal a ser evitado, porque teme ter que lidar com problemas apenas triviais de competição no mercado externo.

Não fosse essa visão estreita, o Brasil já poderia ter gerado renda de exportações todos esses anos, reduzindo o déficit na balança comercial e aliviado um pouco as pressões sobre o balanço em contas correntes. E, principalmente, teríamos gerado renda interna, melhorando a pífia performance de crescimento do PIB. Felizmente, o governo decidiu tomar algum risco este ano, o que é uma saudável mudança de rumos e um passo muito importante para ajudar a recuperação do setor agrícola .

(*) Antonio Delfim Netto é deputado federal pelo PPB-SP, professor emérito da USPE-mail: dep.delfimnetto@camara.gov.br

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