Geral

Lavem suas vidraças!

(*) N. Serra
| Tempo de leitura: 2 min

Esse estremecimento das relações comerciais que Brasil e Argentina vinham mantendo, anomalia que continua repercutindo no mundo todo, bem que recorda aquele problema do moço e da moça (vizinhos) que se conheciam somente através da vidraça embaçada de suas casas. Ele, de um lado, e ela de outro, trocavam seus olhares fortuitos, langorosos, à distância, em todas as manhãs, antes de rumarem para o trabalho. E até ensaiavam sorrisos esperançosos de candidatos a namoro... Os dias passavam, o sol se renovava incessantemente, sem que o casal se cruzasse uma vez sequer nos seus caminhos diários. Todavia, em uma manhã, finalmente, tudo aconteceu. Encontraram-se... Olharam-se de pertinho... Não trocaram palavras, mas perceberam, de imediato, que o embaçamento dos vidros de suas janelas tinha enganado impiedosamente os seus curiosos e sonhadores olhos verdes. Nem ela tinha a beleza que ele supunha e nem ele, por seu turno, era aquilo que ela parecia ver por trás dos vidros esfumaçados de seu lar. E, então, pararam de se observar face à traição das respectivas mirantes...

Como poderia se assemelhar isso às circunstâncias ocasionais do rompimento do acordo que havia entre brasileiros e argentinos? Ter-se-ia de deduzir, provavelmente, ter o rompimento ocorrido porque estes e aqueles estariam entreolhando, também, através das vidraças opacas de seus palácios governamentais, a definição natural de seus interesses comerciais. Obviamente, não estariam divisando corretamente seus problemas comuns, correlatos, e, por isso, o que poderia ser bom para um podia não sê-lo para o outro. Então, as exportações brasileiras de produtos de informática, de telecomunicações, de bens de capital e, igualmente, de veículos automotores, que antes interessavam à Argentina, passaram a não sê-lo. E o mesmo veio a ocorrer com as exportações do país vizinho rumo ao nosso. Dentro do prisma, o ajuste comercial de ambos teria de se fechar um dia. Será que para balanço? Não mais enviamos o que os portenhos necessitam, da mesma forma que já não estamos recebendo nada do que eles produzem. Deixou de existir entre as partes qualquer união aduaneira, e se teme até que não continue vivendo por muito tempo, também, o namoro de ambos por inspiração dos principais atrativos do Mercosul, o qual, como a vidraça dos jovens, terá de ser lavado suficientemente, também, com muita água e bastante saponáceo, para que os interesses de ambas as nações voltem a ser algo coincidentes e, a partir daí, os seus governos possam se olhar novamente com a simpatia que gera tranquilidade de espíritos. É o desejo universal.

(*) O autor, N. Serra, é o jornalista responsável do JC e delegado regional da Associação Paulista de Imprensa e da Ordem dos Velhos Jornalistas do Estado.

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