Geral

Retratos do tempo

(*) Carlos Braga
| Tempo de leitura: 2 min

O amontoado de cinza e ferro retorcido em que se transformou a estação ferroviária de Dois Córregos é, sem dúvida, o triste retrato de um novo tempo. Infelizmente, não aquele novo tempo de esperanças com que todos sempre sonhamos. Mas um tempo de abandono e destruição.

A manchete do Jornal da Cidade informa: Fogo destrói história em Dois Córregos. E a história o que é se não o trabalho acumulado dos homens construindo o futuro? E nas épocas mais sombrias da humanidade, o trabalho do homem destruindo simultaneamente o passado e o futuro.

Aquilo que nós presenciamos com o equivocado processo de privatização das ferrovias é, sem dúvida, parte desta segunda alternativa. A nefasta e irresponsável ação dos governantes destruindo muito mais que a nossa história. O que se está deixando perder pelo abandono é o trabalho de construção de todo um patrimônio que envolveu a luta de muitos homens ao longo de mais de uma geração.

E nós, que estamos mobilizados na tentativa de reverter esse processo, sabemos que não se trata de uma luta para preservar a memória ferroviária. Como se a ferrovia fosse peça de museu, da mesma forma digna de ser respeitada.

O que estamos tratando aqui é de preservar os caminhos do desenvolvimento do País. Caminhos abertos com o suor e o empenho daqueles que nos antecederam. E nós, representantes desta geração, devemos honrar este legado. Mais que isso, é nossa responsabilidade transferir para as gerações futuras aquilo que herdamos, acrescentando ainda a nossa contribuição de trabalho e conhecimento.

Infelizmente, alguns governantes perderam esse conceito da continuidade da história. Mas com certeza para eles no campo da política também não haverá futuro. Porque é possível, como estamos vendo com as ferrovias, abandonar até a destruição o patrimônio do povo. Mas com certeza haverá muitas pessoas como a dona Bela, que mora em frente a estação ferroviária de Dois Córregos para dizer: Eu pensei que a estação iria me ver morrer, mas sou eu que estou vendo ela morrer .

E essa imagem, assim como todas as outras que retratam esse triste tempo de destruição das nossas ferrovias, certamente será mais difícil de apagar.

(*) O autor, Carlos Braga, é deputado estadual, relator do setor de Ferrovias da CPI dos Transportes, na Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo

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