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As causas da crise argentina

(*) Reinaldo César Cafeo
| Tempo de leitura: 3 min

O Brasil vem sendo de certa forma contaminado com as sucessivas crises na Argentina. Vamos levantar alguns pontos relevantes para tentar entender as causas dessa crise. No início da década de 90, visando combater a hiperinflação, o atual Ministro da Economia, Domingos Cavallo, estabeleceu um plano de controle de preços, cuja principal âncora foi o estabelecimento da paridade dólar/peso. Desde 1991 um peso vale exatamente um dólar.

Efetivamente esse câmbio fixo enxugou a liquidez do mercado, controlou a inflação e permitiu a retomada do crescimento econômico argentino. Houve crescimento na ordem de 7% ao ano. Para que essa arquitetura do câmbio surta efeitos duradouros é necessário garantir um fluxo positivo de dólares. As privatizações, somadas a entrada maciça de capital estrangeiro e ainda ao bom desempenho das exportações, garantiram a manutenção da paridade cambial e com ela a estabilidade econômica. Isso se deu até meados da década de 90.

Se de um lado o câmbio fixo controla a inflação, de outro torna o país refém de uma moeda sobre a qual não há controle interno. Além disso o dólar se valorizou no mundo todo puxado pelo bom desempenho da economia norte-americana. Ficou mais complicada a manutenção do fluxo positivo de dólares para aquele país.

A Argentina perdeu competitividade internacional uma vez que os países exportadores foram ajustando suas moedas proporcionalmente a valorização do dólar, o que não aconteceu na Argentina. Devemos considerar ainda que as privatizações têm um limite, ou seja, não há empresas públicas suficientes para permanentemente ser fonte de recursos. As grandes privatizações foram feitas e quando a Argentina mais precisava de novos recursos teve essa fonte esgotada.

A coisa se agravou quando houve no Brasil o choque especulativo em 1999. O nosso câmbio sobrevalorizado garantia vantagem comercial para Argentina. Como houve a desvalorização cambial (acentuada por sinal) a competitividade dos produtos argentinos caiu aqui no Brasil, invertendo o fluxo comercial. Sem saída, em meio a uma enorme desconfiança que a desvalorização do peso seria inevitável, a Argentina pediu socorro ao FMI no início de 2000. Mas não mexeu no câmbio. Sem conseguir resgatar a competitividade internacional a ajuda do FMI foi em vão e a desconfiança se acentuou.

Inúmeros pacotes na tentativa de controlar a economia foram tentados, mas sem sucesso. Agora anunciaram um forte ajuste fiscal e já admitem ser a última tentativa para evitar que o país quebre.

Vejam que a armadilha do câmbio fixo foi uma das principais causas desse estado de coisas. Na prática deveriam ter uma saída programada para desamarrar a economia argentina. Agora nossa torcida é para que efetivamente encontrem o caminho da recuperação, que está muito difícil, e que, o Brasil se prepare para o pior, garantindo apoio da comunidade financeira internacional para acalmar os investidores internacionais que insistem em nos colocar no mesmo saco da Argentina.

Considerando as enormes diferenças entre o Brasil e Argentina, se agirmos rápidos, minimizaremos os efeitos de sua crise. O plano B brasileiro (não da energia) tem que estar em ponto de bala para ser lançado se o cenário argentino se agravar.

(*) Reinaldo César Cafeo - Delegado do Corecon, economista e professor da ITE

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