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Reajustes "achatam" a classe média

Fabiano Alcantara
| Tempo de leitura: 5 min

O recente aumento das tarifas de telefone, combustível e gás de cozinha está deixando consumidores da classe média com a calculadora na mão. Os reajustes somam ao medo da sobretaxa na conta de energia elétrica, motivada pelo plano de racionamento. Um levantamento do Conselho Regional de Economia (Corecon) mostra que em dois anos o aumento da gasolina chega a 61,6% e a assinatura de telefone residencial média 41,1%.

As tarifas que não são mais públicas subiram muito mais que a inflação no período. Em dois anos, o índice oficial de inflação do Governo ficou em 10,7%, afirma o delegado do Corecon em Bauru e professor da Instituição Toledo de Ensino (ITE), Reinaldo Cafeo. Aquilo que não tem concorrência, que você é obrigado a consumir, subiu bem mais, constata. Ele diz que a energia elétrica e os combustíveis subiram devido à pressão do dólar, que tem batido recordes de alta.

Segundo o economista, a classe média é a maior afetada pelos reajustes. Primeiro porque a classe média consume muito, depois porque consume uma gama de serviços que não tem concorrente. A classe média normalmente não gosta do serviço prestado pelo Estado. Ora, se eu não gosto do serviço de educação do Estado o que fazer? Eu vou para a iniciativa privada. E quando você procura um nível de qualidade, as opções são poucas. A mesma coisa acontece com a saúde, exemplifica. De acordo com ele, os planos de saúde e as mensalidades aumentaram mais que a renda da classe média.

O economista afirma que o medo do desemprego está ajudando aos empregadores a manter os salários arroxados. Para não perder o que conquistou, o trabalhador de classe média está com receio de uma atuação sindical mais forte, ressalta.

No comércio, a situação da economia preocupa os lojistas. Está difícil vender e não há como repassar as nossas perdas, afirma o presidente da Câmara dos Dirigentes Lojistas (CDL) de Bauru, Sérgio Evandro do Amaral Motta. Ele diz que economia de energia está dificultando as vendas e teme que os feriados semanais sejam decretados.

As lojas estão às escuras, feias. O comércio fica deprimido com as luzes apagadas, afirma. Motta diz que a categoria ainda não contabilizou os prejuízos com os recentes reajustes, mas conta que os artigos de verão, que já começam a ser comprados estão vindo com reajustes de 5 a 10%, o que, segundo o representante dos lojistas, será repassado aos consumidores. Mesmo com a dificuldade de vendas, Motta afirma que o setor ainda não está pensando em demissões.

Nos supermercados, os reajustes também estão controlados. Segundo informa Cafeo, o aumento da cesta básica em dois anos ficou em 6,25%. Ele aponta a concorrência entre os supermercados como motivo. Esta semana, a Associação Paulista de Supermercados (Apas) divulgou que desde agosto de 1994, enquanto o IPC-Fipe acumula alta de 79,61%, a variação dos preços nos supermercados foi de 27,27%. No mês passado, o Índice de Preços dos Supermercados (IPS), não apresentou alta.

O supermercadista está tendo aumento de energia, aumento de telefone, ele poderia querer elevar seu preço. Mas se ele fizer isso, ninguém compra. O consumidor está com medo do desemprego, está com a renda líquida menor. Este efeito da tentativa do aumento de custo é impactado pela insuficiência de demanda e os preços ficam estáveis, explica Cafeo.

Aumentos

Na semana passada, os combustíveis aumentaram entre 10 e 11%, em média. O botijão de gás, que custava R$ 19,90 passou a R$ 23,00 com a entrega de caminhão. No depósito, o botijão que custava R$ 18,90 ficou em R$ 21,00.

No mês passado, a Telefônica aumentou em 18% a assinatura do telefone fixo. O preço passou de R$ 19,11 para R$ 23,32. O aumento juntou-se ao gasto com energia elétrica, que, em abril, subiu 17,13%. O reajuste de energia elétrica, segundo a assessoria de imprensa da Companhia Paulista de Força e Luz (CPFL), é anual. Outra tarifa medida pelo Corecon, que teve aumento expressivo, foram os pedágios, que tiveram reajuste de 45,4% em dois anos.

O presidente do Sindicato do Comércio Varejista de Derivados do Petróleo (Sincopetro) de Bauru, Sebastião Homero Gomes, diz que a tendência é a diminuição do consumo. Nada sobe como os combustíveis, os salários não acompanham, constata. Toda vez que existe aumento as vendas diminuem, afirma.

A população confirma a previsão de redução de consumo. Estou deixando o carro na garagem. Minha família já não está mais economizando, está faltando mesmo, reclama o funcionário público municipal Tércio Santos Navarro Júnior.

A contadora Célia Gimenes diz que cortou gastos até o limite. O dinheiro diminuiu e os gastos aumentaram. Já estamos racionando energia e logo, logo será a vez da água, advertiu. O aposentado Luiz Paulovich também readaptou o orçamento familiar. Deixei de comprar iogurte, queijos e outros produtos que não são essenciais, afirma. De acordo com ele, após seis anos, sua aposentadoria corresponde a metade do valor, ao calcular em dólar. O dólar é que manda. Com este dinheiro que recebo, compro bem menos hoje em dia, reclama.

Para Wagner Gomide, tecnólogo em processamento de dados, o Governo Federal mascara a inflação. Todo mundo sabe que não é 1% ao mês, é só andar por aí que qualquer um vê os aumentos, acusa. É uma pouca vergonha. A Argentina está por um triz de quebrar e nós vamos junto, prevê. O tecnólogo diz que um reflexo da crise é o assédio dos vendedores das lojas do Calçadão, na rua Batista de Carvalho. Quem vive de comissão fica igual a tubarão. Não pode ver ninguém na loja que vai em cima, afirma.

Para a operadora de computador Giane Cristina de Godoy Tedesco, a situação beira o insuportável. Está aumentando tudo, remédios, mercado. A inflação baixa é uma enganação. Fica difícil até para se divertir".

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