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Homem

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 5 min

Não é só a mulher que tem o seu Dia Internacional. Quem prestar atenção nas agendas e nas efemérides dos jornais e almanaques vai ver que hoje, 15 de julho, é o Dia Internacional do Homem. Talvez por não se ligarem muito em datas (as mulheres não vivem reclamando que eles esquecem o aniversário de namoro, de casamento, do primeiro beijo?), os homens nem saibam ou comemorem o seu dia, mas isso não quer dizer que eles não tenham motivos para serem parabenizados hoje. O homem nesse início de século XXI, na grande maioria dos casos, está longe de ser o brutamontes machista de 100 anos atrás. Muito pelo contrário, está mais participativo na vida doméstica, mais preocupado com a paternidade e muito mais sensível no seu trato com as mulheres. Razões mais do que importantes para se comemorar a data.

Mas afinal, o que aconteceu com o homem nessa segunda metade do século XX para que ele se tornasse mas sensível e até frágil? Muitas coisas. A principal, com certeza, foi o avanço da mulher em vários setores, que ocorreu a partir da década de 60, com o famoso movimento feminista. A tomada de espaço feminino induziu os homens a se mexerem também, mesmo que de uma forma lenta, que só começou a mostrar os seus resultados da década de 90 para cá. Segundo o ginecologista e terapeuta sexual Nelson Vitiello, membro do comitê diretivo da Federação Latino-americana de Sexologia e Educação Sexual (Flasses) e coordenador do setor de Tocoginecologia Psicossomática do Departamento de Saúde Materno-infantil da Faculdade de Medicina do ABC, os homens foram obrigados a mudar depois do avanço feminino, mas essa mudança não ocorreu de forma linear. Para Vitiello, grande parte dos homens aparenta ter mudado mas ainda não mudou por completo.

De acordo com especialistas, o homem moderno predomina nas classes sociais mais favorecidas. Em segmentos de um nível cultural mais elevado, percebemos uma porcentagem maior da população masculina que reagiu positivamente às mudanças que transcorreram após a evolução do papel da mulher, explica o psicólogo Oswaldo Rodrigues Júnior, secretário-geral da Associação Mundial de Sexologia. Estes homens que se propuseram a mudar, na verdade, procuraram uma outra forma de se manterem como homens, o que é diferente de um processo social e genético. E isto permitiu a eles a incorporação de certos valores que, até a geração passada, eram exclusivos das mulheres, frisa Rodrigues Júnior. É por isso que hoje já não assusta tanto ver um homem preocupado com a própria beleza (leia no boxe), que não se importe muito em perder o jogo de futebol com os amigos para ir ao supermercado para a esposa, ou que fique em casa com os filhos para a mulher poder visitar uma amiga, por exemplo.

É por isso que as mulheres podem comemorar o dia de hoje, afinal a mudança, que caminha a passos lentos, é inevitável e mais cedo ou mais tarde, vai dominar o universo masculino de acordo com Nélson Vitiello, que também é autor do livro 500 Perguntas sobre Sexo, com a jornalista Laura Muller. Para ele, o homem deve, nos próximos anos, cada vez mais, se ver livre dos preconceitos machistas herdados dos séculos passados e se tornar mais e mais flexível. É um processo moroso, que vem emergindo há algumas gerações mas que só ficará mais evidente daqui umas três décadas, garante.

Fim dos machões

As mulheres já tiveram a oportunidade de comprovar essas mudanças não têm do que reclamar. Meu marido é muito compreensivo e sempre me ajudou em casa e na minha profissão, diz a comerciante Lúcia Faria. Nós praticamente somos como uma equipe em casa, diz. Para a estudante Camila H. Freitas, que divide o apartamento com o namorado, as mulheres também não estão mais dando muita bola para os machões, por isso os homens estão se virando para agradá-las. Meu namorado me ajuda muito, assim como eu o ajudo. Somos iguais, sem competição, explica. A estudante tem razão, segundo Nélson Vitiello. Para o médico, hoje a mulher quer um parceiro com quem possa dividir conquistas e frustrações. Ela não quer competir, quer partilhar. O machão, que de acordo com a psicóloga Elaine Olmo em matéria publicada no Caderno Ser, sente necessidade de dominar e decidir todas as questões para esconder suas inseguranças e medos, não é capaz de suprir essas necessidades femininas, por isso está sendo deixado de lado aos poucos.

Viva o homem moderno!

Crise masculina

Mas a independência da mulher não tornou o homem (não todos, vale ressaltar mais uma vez) apenas mais sensível e compreensivo, fez dele também uma criatura mais frágil. De acordo com pesquisas feitas no Rio de Janeiro pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento em parceria com Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), há uma grande crise de identidade entre os homens nesse começo de século causada pelo avanço feminino. A conclusão dos trabalhos dos dois órgãos constatou que os homens, mais fragilizados, se expõe mais a situações de perigo e, por isso, morrem mais cedo, sobretudo na faixa entre 25 e 49 anos. Para o psiquiatra Luiz Cuschnir, autor de Homens e Suas Máscaras - A Revolução Silenciosa, lançado em abril pela Editora Campus, o homem está fragilizado porque não sabe o que fazer com as suas emoções. Ele ainda se sente desconfortável com as transformações na vida familiar e afetiva e, em muitos casos, ainda não aceita limpar a cozinha..., diz o autor. A solução para essa crise deve acontecer com a ajuda da mulher, conforme o homem for conseguindo colocar para fora os seus sentimentos em relação aos seus medos e expectativas e conseguir expressar melhor sua afetividade, sem confundir isso tudo com fraqueza. Os homens nunca foram felizes no papel convencional de forte e imbatível, segundo Cuschnir.

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