Geral

A opção que se impõe

(*) Jorge Boaventura
| Tempo de leitura: 3 min

Por mais que se tente tapar o sol com uma peneira - como o diz a sabedoria popular -, a verdade que se patenteia diante dos olhos de todos, longe de ser minimamente satisfatória, é brutal e constrangedoramente injusta, com problemas que não apenas se eternizam, como na maioria dos casos, se agravam mais e mais a cada dia que passa. Nem pense o leitor, por favor, que nos comprazemos com registrá-lo. Ao contrário, fazemo-lo com pesar, alegrando-nos toda vez que, aqui ou ali, acontecem fatos auspiciosos e promissores. Tais fatos existem efetivamente, e seríamos pouco verazes se deixássemos de mencioná-lo. Ocorre, porém, infelizmente, que para cada um deles manifesta-se a presença, esmagadoramente predominante, pelo vulto e pelo número, dos que, ao menos em nosso entendimento, continuam a pressionar a nossa sociedade e, mais do que ela, a civilização em que estamos inseridos, para o resvaladouro da decadência que, segundo registra a História, tem sido o destino de todas as que nos precederam.

Convém, a esta altura, propor à consideração pela inteligência e pela consciência dos leitores que, segundo nosso entendimento, existem dois planos no evoluir da História: um, correspondente ao que os homens desejam fazer, esforçam-se por consegui-lo, e efetivamente fazem; outro, que resulta da interação entre o que eles fizeram, e que não fora vislumbrada ou prevista. O leitor entende que ao falar de planos da História, não o estamos fazendo na acepção em que são entendidos em teorias de planejamento mas, melhormente, no sentido que têm nas leis da perspectiva. E é aí, precisamente aí, que se coloca a questão da necessidade de opção que, realmente, se impõe e não deve ser mais retardada - se é que ainda há tempo para fazê-la. Refere-se ela à questão, absolutamente fundamental, sobre o que somos realmente. A questão básica que divide o pensamento humano de todos os tempos: seremos apenas matéria, tal como ela se nos afigura ou, além dela, existe algo mais que deve ser considerado? Se existe apenas matéria, nós somos o resultado do encontro casual de substâncias que, por sua complexidade, adquiriram a propriedade de perceber o mundo exterior, de interpretá-lo e de interagir com ele. Na outra hipótese - que é a que figura nos alicerces de que brotou a civilização a que pertencemos - somos seres criados por Deus, à Sua imagem e semelhança, e representamos uma dualidade de corpo material e espírito, este eterno e aquele temporário e fugaz, Espírito eterno cujo destino depende do uso que fizermos do livre arbítrio que nos teria sido concedido ao sermos criados. Como vê o leitor, na primeira hipótese, deixamos de vincular-nos a esse Deus Criador, à Sua vontade e às Suas leis. Decorre daí que, não existindo outra vida além desta que conhecemos, devemos desfrutá-la o mais e o melhor possível, segundo as exigências que bradam em nosso íntimo, nascidas da matéria de que somos constituídos - isto, parece-nos, abre as portas para todos os egoísmos, dos quais resultam todas as injustiças e todas as brutalidades. É a hipótese que está, no momento, cada vez mais claramente predominante. Saibam os leitores, por exemplo, que, recentemente, foi aprovada na ONU, a idéia da presença nela de representantes de todas as grandes correntes religiosas - à exceção do cristianismo! A alegação é a de que, segundo ele, ninguém vai a Deus senão por Jesus - o que fere os direitos humanos e fere a Carta da ONU sobre os citados direitos! O Bem e o Mal ficam, assim, dependentes, não de qualquer revelação divina, mas do que a ONU decidiu. A ONU que tem um grupo de apenas cinco membros, que se auto-proclamaram detentores, e em caráter permanente e definitivo, do direito de veto. E, como se não bastasse o abuso, quando se configura hipótese de divergência entre eles os mais poderosos dentre os mesmos agem por intermédio da Otan, ao arrepio do que possa pensar e sentir a comunidade de todas as demais nações. O assunto é vasto e pretendemos voltar a ele em próximas reflexões.

(*) Home-page: www.jorgeboaventura.jor.brE-mail: boaventura@jorgeboaventura.jor.br

Comentários

Comentários