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O inferno é aqui mesmo

(*) Milton Flávio
| Tempo de leitura: 3 min

O ex-presidente Fernando Collor dizia que os automóveis fabricados no Brasil, quando comparados aos produzidos em outros países, não passavam de verdadeiras carroças. Eram ruins e caros. Tinha razão o primeiro-amigo de PC. O tempo passou, os carros melhoraram de qualidade, mas, ao menos em São Paulo e também nas médias e grandes cidades do País, continuam mantendo uma estreita ligação com as carroças: a baixa velocidade. Não porque lhes falte potência. Mas porque já não há mais espaço para eles. Pouco importa a hora, pouco importa o local: os congestionamentos se sucedem, numa freqüência capaz de tirar a calma de um monge budista.

As causas desse inferno são conhecidas. Em 25 anos, na Capital paulista a frota de veículos saltou de 1,4 milhão para 5,2 milhões. Em contrapartida, a malha viária urbana, que era de 13.800 quilômetros, passou para os atuais 15.600 quilômetros. Acrescente-se a isso o crescimento desordenado da cidade, a falta de sistemas de transporte coletivo adequados, a má conservação das vias, a escassez de semáforos inteligentes e a falta de educação de boa parte dos motoristas. Não fica difícil entender porque, para muita gente, o inferno é aqui mesmo. Ainda mais quando São Pedro, por sacanagem ou descuido, faz chover nos horários de pico e nos locais errados.

Gente do ramo estima que, somados os gastos com combustíveis e o tempo perdido, a brincadeira custa à metrópole paulistana a bagatela de R$ 3 bilhões por ano, pouco menos da metade de seu orçamento. Suponho que nessa conta de chegar não estejam computados os gastos com calmantes, psicólogos e massagens terapêuticas se é que sobra tempo e disposição para relaxamentos a quem mora na Zona Leste e trabalha no outro extremo da cidade.

Os especialistas são unânimes em afirmar que não há uma solução única para o problema, que é preciso adotar de forma conjunta e harmônica uma série de medidas. Medidas essas que vão da ampliação da rede de trens e metrô (o que, aliás, vem sendo feito pelo Governo do Estado, após anos de descaso das administrações anteriores) até a cobrança de pedágios nas marginais e principais vias do centro expandido, mudança nos horários do comércio e indústria, realização de grandes obras viárias (o Rodoanel, como se sabe, já está sendo feito em ritmo acelerado) e ampliação do sistema de rodízio, entre uma série de outras providências.

Como se percebe, a solução do problema passa pela adoção de várias providências, todas pouco palatáveis, ora porque mexem diretamente ou indiretamente no bolso dos contribuintes (via pedágios ou impostos), ora porque obrigam os cidadãos a mudar hábitos arraigados.

A opção seria deixar tudo como está: na mais perfeita desordem. Nada de novas obras, nada de investimentos, nada de pedágios, nada de rodízios. Mas o desconforto e os prejuízos (coletivos e individuais) continuariam crescendo em proporções geométricas. Nem que fosse só para provar que não há parto sem dor e que o inferno, minhas senhoras, meus senhores, é aqui mesmo. Até prova em contrário.

(*) Milton Flávio é deputado estadual pelo PSDB e presidente da Comissão de Assuntos Internacionais da Assembléia Legislativa de São Paulo. E-mail: mflavio@al.sp.gov.br ou miltonflavio@laser.com.br

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