Voltamos ao velho e gostoso assunto, as Histórias de Pescador. Verdadeiras ou não, merecem respeito até do IBAMA! O cenário se repete, mas nunca cansa ou enjôa. Para quem ama a pesca, o lugar comum (rios) sempre é novo e alvissareiro, por mais que o frequentamos. Desta vez, estávamos no rancho do Tito, mais conhecido como Pistom de Ouro pela sua incrível performance com o belo instrumento musical. O rio, o lendárioTietê. O confortável rancho, às margens de um grande braço do caudaloso e outrora piscoso rio, nos oferecia um aconchego delicioso. O time estava completo, músicos de primeria linha (que pode ser de pesca), o Tião (cavaco), Mané (violão), Paulão, mais conhecido como Pedrão (timba), Agostinho (flauta), o Tite (sax tenor), Dulfles (pandeiro), mais o Tito (pistom), além, é claro, deste pescador costumário. Quando falamos músicos é porque, verdadeiramente eles o são, e dos bons. Formam o conjunto Os Versáteis, onde temos o privilégio de cantar, com régio acompanhamento, as mais belas páginas do cancioneiro popular brasileiro e outras tradicionais, de conhecimento de todos aqueles que apreciam uma boa música. Mas voltando ao que interessa, pois nosso papo não é música e sim pesca, o acontecido foi incrível. Após um rápido ensaio musical, trocamos o violão pelo molinete e saímos de barco, flutuando suavemente pelo rio, cujas margens se estendiam ao largo, engrossadas pelos aguapés floridos. A idéia inicial de nosso mestre e piloteiro (Tito) era de apoitar num lugar sombreado, para apreciarmos a bela paisagem e, ao mesmo tempo, tentar faturar algumas corvinas, quem sabe...
O tapete verde formado pelos aguapés era realmente uma image deslumbrante. As pequenas ondas, oriundas da passagem rápida do barco, iam de encontro a ele, dando-nos a sensação gostosa do balanço cadenciado daquela massa flutuante, como se estivesse viva! Um verdadeiro balé aquático! Nesta passagem, bem próxima da margem, percebemos que havia algumas redes armadas junto às folhas e raízes das plantas. Embora discordemos todos desta prática abominável de se pescar com redes, nada pudemos fazer. O Tito apenas desligou o motor e passamos olhando, desolados, aquela ação predatória de maus pescadores. Sem o ronco do motor, pudemos perceber o silêncio mágico na voz do vento, enquanto éramos levados suavemente pela corrente. Após uma pequena pausa numa curva do rio, alguns quilômetros abaixo, a primeira surpresa. Ao religar o motor, o grande Tito percebeu que acelerava o possante Yamaha 15 sem sucesso, pois ele não obedecia; não saía do lugar. Piloteiro experiente, Tito, sem titubear, levantou o motor e, para a segunda surpresa de todos, percebemos que estávamos sem a hélice! O importante acessório se soltara na vinda! Foi o mais prático pensamento que nos ocorreu. E agora? Pra nossa sorte, estávamos próximos ao rancho de um outro amigo, o Waldir. Ao sabor da corrente, ouvindo o chorinhodo Tião pelas dores nos ombros ao pegar no remo, sentindo o remartismo, chegamos à margem direita de quem sobe, ou esquerda de quem desce o rio. Dá na mesma. O importante é que o Waldir tinha uma hélice novinha, do mesmo modelo! Incrível! De volta ao rio, nova hélice no lugar, motor e barco na água. Todos a postos. RRRRAAAAAMMMMM!! - motor tinindo!!
- Tito, mostra aí que você é bom mesmo, arranca com tudo, vamos comemorar nossa sorte! Foi sugestão de todos. Saímos como um bólido!! Um barulho ensurdecedor, digno de uma ferrari envenenada! Foi uma arrancada estonteante, o rio chegou a espumar! Pena que voamos somente alguns metros. Paramos. Estávamos à deriva. Novamente o motor foi levantado e constatamos abismados: Sem hélice de novo! E era novinha! E era do Waldir, coitado! O paciente Waldir, embora chateado, pois perdera um acessório importado, dos melhores mesmo, teve a fineza de nos rebocar de volta ao nosso rancho, digo, do Tito.
Todo mundo cabisbaixo, mudo até, pensando com culpa, na loucura que Seu Tito fizera por ter levado a sério nossa eufórica sugestão, nem percebemos que não mais havia redes nos aguapés, aquelas que tínhamos visto antes, lembram? Chegando ao ancoradouro de concreto que surgia das águas, possibilitando o desembarque sem molhar os pés, continuando em plataforma até a porta do rancho, tivemos a surpresa maior! Um amontoado de cor cinza com tons esverdeados, imperceptível à distância para se dizer do que se tratava, bloqueava a entrada para a varada do rancho. Fomos, passo a passo, curiosos e assustados, nos aproximando daquela coisa estranha. Aquilo tudo, era um bolo formado por várias redes de pesca, dilaceradas, muitas folhas de aguapés, raízes, além de inúmeras corvinas de bom tamanho, presas, enroladas, uma confusão total! Acreditem, o melhor vem agora: numa das extremidades das redes emaranhadas, estavam, para a alegria do Waldir, presas pelos fios de nylon, as duas hélices que havíamos perdido!!! Após a reação de incredulidade que tomou conta de todos nós, para acalmar a todos, tomamos um bom gole do conhaque do Tito, marca Diapasão (conhaque de músico). Refeitos da surpresa, pudemos concluir, com a sabedoria do mais vivido pescador, o que realmente acontecera. Foi o seguinte: na ida, ao pararmos junto dos aguapés para verificarmos de perto as redes que se prendiam nos mesmos, a primeira hélice se soltou, ficando presa em uma das redes.
Bem depois, quando o Tito deu aquela fabulosa arrancada em direção ao rancho, já na volta, a força do motor foi tão violenta, que a nova hélice se soltou, subindo o rio, submersa sob as ilhas de aguapés, girando sem parar! Ao passar pelas redes, bateu numa das pás da primeira hélice que presa estava, mas, de tal maneira, que fez a mesma girar como se estivesse no motor. Não deu outra. As duas hélices, numa rotação incrível, conseguiram arrastar tudo aquilo, redes, corvinas, aguapés, para quase dentro do rancho. Só não perguntem como elas conseguiram virar em direção ao rancho e subir pelo ancoradouro. No mínimo, a primeira hélice deu a dica, pois conhece bem o local e já havia feito várias pescarias com o Tito e seu motor. Já é até considerada uma hélice de estimação. Deu no que deu!!!
Um abraço a todos os pescadores (e pescadoras, também) e que Deus nos ajude sempre a inventar essas histórias verdadeiras que parecem mentiras, não é mesmo?