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Mercadante: elevar juros é equívoco

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 4 min

O deputado federal Aloizio Mercadante cumpriu agenda na região. Por onde passou, foi indagado sobre a alta nos juros.

O deputado federal Aloizio Mercadante (PT) esteve em Bauru, ontem, como parte dos compromissos que mantém na região e no Interior do Estado até este final de semana. No JC, o deputado petista, candidato a uma vaga no Senado Federal na eleição do próximo ano, falou sobre a crise Argentina e as repercussões do efeito tango no Brasil. Em uma de suas avaliações, Mercadante considerou equivocada a estratégia dos comandantes da política econômica do Governo Federal de subir a taxa de juros em mais um ponto percentual, num total de 4% somente neste ano. Na edição de domingo, leia a entrevista completa com análise da crise na Argentina e seus reflexos no Brasil.

Para Aloizio Mercadante, embora a economia brasileira esteja a cada dia fragilizada por um modelo que estrangula o crescimento e a produção, acentua a recessão e privilegia o capital especulativo, ainda há oportunidade para que o País busque um caminho que o retire da rota sem volta da falência estrutural, para ele, situação vivida agora pela Argentina. Para o deputado, o modelo de política econômica neoliberal adotado, com todos os seus efeitos perversos no Brasil, prolonga a vida do paciente terminal mas não assegura a qualidade e nem reverte o quadro, situação irreversível enfrentada pelo país do tango.

Para o deputado petista, entre os equívocos do modelo da política-econômica brasileira é o aumento sucessivo dos juros. Privilegiar o capital especulativo com o buraco das contas públicas internas não combinam. Acho que a trajetória de aumentar os juros internos não vai reverter a crise cambial e vai agravar ainda mais a situação das finanças públicas no Brasil. Para cada um por cento que o governo aumenta na taxa básica de juros, que agora foi para 19%, o governo perde R$ 5 bilhões no Orçamento em apenas um ano, afirmou.

Aloizio Mercadante lembrou que elevar os juros com a consequente necessidade de cortes nos gastos pelo Governo Federal gera a necessidade de reduzir ainda mais investimentos. Isso compromete o programa de geração de energia elétrica, o investimento em políticas sociais e a retomada do crescimento. Então, o Brasil tem essa vulnerabilidade nas finanças públicas, a vulnerabilidade no câmbio e por isso a turbulência internacional nos atinge com tanta facilidade e diretamente. E nós ainda temos um problema adicional neste ano que é a crise energética, que paralisou os investimentos externos que estavam programados, disse.

O deputado federal argumentou que no ano passado o País teve US$ 30 bilhões de investimentos diretos externos para privatização, compra de empresas e novos investimentos. Este ano não teremos mais que US$ 18 bilhões. Por isso, o buraco fica muito mais fundo. E o Governo Federal está tentando atrair o capital especulativo que cobra um preço caríssimo, é um cassino financeiro, e o preço que eles comandam, o País não pode continuar pagando. Desta forma, Mercadante acha que o Brasil terá que atacar de frente a vulnerabilidade cambial exportando mais, com substituição de importação, defender mais o mercado interno, gerar superávit na balança comercial, para romper a dependência com esse capital especulativo e poder crescer de forma duradoura.

Assim, como de janeiro para cá o Governo Federal elevou os juros em cerca de 4%, isso significa, segundo Mercadante, R$ 20 bilhões a menos no Orçamento somente em um ano. No lado inverso, se nós reduzíssemos a taxa de juros em 3%, nós poderíamos dobrar a verba do ano inteiro com educação. Como já houve esse aumento, a menos que não fique por um ano essa taxa de juros, o País vai perder R$ 10 bilhões no Orçamento. E assim, o que é inevitável. O governo vai cortar gastos e aumentar impostos para poder pagar esses juros. Agora, isso é caminho para o Brasil?, indagou.

O deputado afirmou que para cada R$ 1,00 que a Receita Federal arrecada com imposto no Brasil hoje, R$ 0,66 são para pagar juros. Por isso que o povo paga cada vez mais impostos e não vê saúde, educação e agora nem energia. Porque boa parte de tudo o que o governo arrecada, e não é pouco, é diluído nessa lógica de pagar juros da dívida. Então, se não rompermos com essa vulnerabilidade cambial, não vamos conseguir reduzir os juros sustentadamente. Se você consegue isso não precisa a todo tempo aumentar imposto e cortar gastos no Orçamento. Veja a comparação, os americanos estão num quadro de recessão. O que eles fizeram, baixaram os juros e diminuíram a carga de impostos para tentar reativar a economia. Nós estamos num quadro de recessão e fazemos o inverso, aprofundando a recessão. Hoje somos prisioneiros dessa lógica e precisamos romper para sobreviver, até, finalizou.

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