Violeiro, cantor e compositor Almir Sater mostra em show, hoje, porque as culturas matogrossense e paulista estão tão próximas.
Nos tempos áureos da ferrovia, o trem que vinha do Pantanal fazia de Bauru peça chave para conexão São Paulo-Mato Grosso do Sul. O trem se foi e nem só saudades deixou no caminho, mas também marcas culturais fincadas na alma paulista.
Uma delas é a música da viola de 10 cordas, ou viola caipira, como é mais conhecida por aqui. O instrumento que carrega consigo muitas lendas e mistérios tem seu embaixador em Campo Grande (MS), Almir Sater, que faz show hoje em Bauru, na Cervejaria dos Monges.
Uma dessas lendas diz que, se o violeiro quer ser realmente bom, ele tem que catar à unha uma cobra coral, com o polegar e indicador direitos, e passá-la entre os dedos da mão esquerda. Depois disso, deve-se soltá-la numa encruzilhada.
Claro que a lenda tem seu lado óbvio: se o músico conseguir segurar a cobra e soltá-la sem ser picado, já é um grande passo, pois é sinal que sobreviveu à investida.
Não vem ao caso saber se Almir Sater se preocupou em realizar a simpatia - isso também porque nenhum violeiro revela seu segredo -, o fato é que técnica e musicalidade sobram-lhe aos dedos, e ao coração. Uma inspiração que ele diz ter vindo de mestres como o paulista Tião Carreiro (Tião Carreiro & Pardinho) e o mineiro Renato Andrade.
Meus mestres são os velhos violeiros, como Tião Carreiro e Renato Andrade. Quem conseguir juntar o sangue, a criatividade e a intuição de Tião com a técnica do Renato, é um violeiro perfeito, disse Almir à reportagem, de Campo Grande, pelo telefone, enquanto dedilhava sua viola.
A música de Tião Carreiro, que para Almir Sater foi um divisor de águas - Seu suíngue, a fusão do samba com a música de viola, a levada dele é fantástica, diz - aparece no repertório do show em Cabelo Loiro.
Já Renato Andrade entra no rol de parceiros e dá as caras em Tocando em Frente, Um Violeiro Toca, Rasta do Adeus, Peão e Terra de Sonhos.
Outros sucessos como Trem do Pantanal (Paulo Simões e Geraldo Roca), Chalana (Mário Zan e Arlindo Pinto), Cabecinha no Ombro (Paulo Borges) e Moreninha Linda (Tonico, Priminho e Maninho) também serão ouvidas hoje.
Muitas cidades estão preocupadas em resgatar suas raízes. Em todas que passei pelo interior de São Paulo, todos querem essa alma paulista, essa brasilidade. Eu acho do cacete isso. Acho que tem que universalizar, mas não podemos esquecer o rabo, o que nos criou. E a cultura paulista e matogrossense se completam. O sul do Mato Grosso é muito ligado a São Paulo e Minas, ensina.
E o que esperar de hoje à noite, Almir? Só coisas nossas, não tenho pretensão de mais nada, só levar emoção, nosso toque. Precisa mais?
Serviço
Almir Sater faz show na Cervejaria dos Monges, hoje, 23h (a casa abre às 21h). Preços não divulgados. Apoio: Hit Parade, Tilibra, Saint Paul Residence, 96 FM e Jornal da Cidade. Av. Getúlio Vargas, 7-50. Informações: 234-7773.