A crise energética que teria como corolário os apagões, ainda está envolta em mistério. Todo escuro é apropriado à criação de suspense. Ninguém sabe quanto tempo vão durar os cortes de fornecimento de energia e se de fato acontecerão. Industriais sequer podem se programar para tentar minorar seus efeitos. Estragos são visíveis na economia do País. Bateram as asas os investidores de capital firme. Permanecem alguns especuladores de sangue frio para aproveitar os juros altos. Perdemos o pouco de credibilidade que ainda restava. Obrigado a economizar a energia que nunca pôde usar, o povo desistiu do sonho das bugigangas eletrônicas.
A falta de construção das hidroelétricas há anos reclamadas, me remete a um conto do filósofo dinamarquês Soren Kierkegaard sobre o palhaço e o circo armado na periferia da cidade. Estava para ser iniciado o espetáculo de estréia, todos os artistas já devidamente paramentados, quando irrompe um incêndio. O diretor manda o palhaço ir correndo à cidade em busca de socorro. O palhaço vai, suplica a todos para que ajudem no combate às chamas. Mas os habitantes tomam o desespero do palhaço como um papel bem interpretado. Riem e aplaudem enquanto o palhaço grita, chora e arranca a peruca para demonstrar que fala a verdade. O fogo destrói o circo e se propaga pelas casas vizinhas. Os bombeiros e voluntários não dão conta do sinistro e a cidade é destruída, ou quase.
Os técnicos em produção e distribuição de energia elétrica deste País fizeram o papel do palhaço de Kierkegaard. Avisaram o governo sobre a necessidade de investimentos maciços no setor, mas não foram ouvidos. Os neoliberais costumam deixar os problemas por conta do mercado, que tem solução para tudo e um dia também acabará com os pobres e miseráveis do Brasil. Talvez de fome...
Leio que o presidente FHC está preocupado com o desenvolvimento de uma Teoria do Parlamentarismo Participativo. Acompanho as greves de policiais militares que pipocam perigosamente de Capital em Capital. Chegará a São Paulo, com toda certeza.
O caso Jader Barbalho exemplifica bem o apagão ético que nos empurra para as trevas. Quanto não se propagou pela imprensa que o homem é corrupto, tem um passado comprometedor e ficou rico às custas do dinheiro público? Mesmo assim, elegeram-no para a Presidência do Senado da República, o mais alto cargo do Poder Legislativo, instituição que deveria ser um dos pilares de sustentação da vida democrática. E mais: com o apoio do presidente FHC, arrependido de ter dado guarida a um cidadão conhecido pela antonomásia de Toninho Malvadeza.
Agora a podridão desborda de vez e Jader se licencia para escapar das pressões políticas. Mas continua jurando inocência sob o escudo da imunidade. Na minha, na sua, na nossa conta bancária ninguém deposita milhões alheios que possam render juros em aplicações financeiras. Se o senador renunciar, o suplente é o próprio pai, cassado por corrupção em 1964. Na vice-presidência do Senado, Edison Lobão assume a vaga. Outro exemplo de homem público: foi pego votando no lugar do deputado José Sarney Filho - hoje ministro do Meio Ambiente -, que estava viajando. Esse pianista foi o relator que deu parecer favorável ao projeto que anistiou as multas aplicadas pela Justiça Eleitoral aos candidatos que emporcalharam ruas e abusaram do poder econômico nas eleições de 98. Quando se discutia a elevação dos salários dos senadores para R$12.720,00, esse mesmo senhor produziu a seguinte pérola: É claro que é um bom salário para pessoas normais. Mas para o senador, que gasta com viagens e recebe inúmeros pedidos em seu gabinete, não é suficiente.
O brasileiro perdeu o seu referencial. Igual aos passageiros do Jumbo do filme Aeroporto, que perde a tripulação em pleno ar, em conseqüência do choque com um avião executivo. Cresce o desemprego, a inflação volta sorrateira, os salários estão defasados, os impostos são escorchantes, a insatisfação aumenta, as classes produtoras desanimam, os palhaços se desesperam e FHC pensa no Parlamentarismo que não quis para si, mas acha legal com o Lula fazendo o papel de rainha Elizabeth II.
(*)Zarcillo Barbosa é jornalista.