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Avós em ação

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 7 min

Na próxima quinta-feira, dia 26, elas vão estar comemorando o seu dia. As avós já foram chamadas de tudo o que há de bom: anjos da guarda, mães com açúcar, segundas mães... Por trás desses apelidos elogiosos, há sempre implícita a idéia de que as avós têm como função primordial olhar pelos filhos e pelos netos. E essa idéia se confirma porque, na grande maioria dos casos, cuidar dos outros é o que as avós mais acabam fazendo mesmo. Mas nem todas elas se dedicam apenas a isso. Existem também aquelas que não deixaram de lado a sua vida particular apesar da idade, da saúde e, em alguns casos, da viuvez. Elas são alegres, vaidosas, superativas e além de dar atenção para filhos e netos, continuam a aproveitar a vida da mesma maneira que faziam quando eram jovens ou até mais.

Eu não paro em casa, diz sorridente a dona de casa Isabel da Silva Pinto, de 72 anos. Mãe de três filhos e avós de três netos - duas meninas e um menino, entre 16 e 8 anos - todos os dias da semana, na parte da tarde, ela se reveza entre atividades na igreja e encontros com outras senhoras da mesma faixa etária em locais como a Associação dos Aposentados e Pensionistas de Bauru e Região. Faço todo o meu serviço em casa de manhã e fico com as tardes livres, conta. O dia que alguém me encontrar em casa é porque eu não estou boa, completa.

A mesma disposição também exibe a ex-professora de matemática do colégio Guedes de Azevedo e ex-funcionária do Sesi, Zeila Crosara de Resende, de 67 anos. Mesmo sendo avó de sete netos com idades entre 19 e 6 anos, ela continua a ter uma vida bastante de agitada que praticamente ignora o estereótipo da avó tradicional. A gente não pode parar, tem sempre que estar em atividade para se sentir útil, sentencia. E, desde que ficou viúva, há 27 anos, ela tem se movimentado muito em atividades que vão do voluntariado em hospitais e no próprio Sesi até a vida pública. Fui candidata à vereadora na penúltima eleição, lembra, e, graças a Deus, fui bem votada, diz sobre os cento e tantos votos que recebeu nas urnas.

Atualmente, entre encontros em grupos da terceira idade e aulas de hidroginástica - que freqüenta às segundas-feiras - Zeila ainda tem tempo para se dedicar aos trabalhos manuais, onde sua especialidade é o frivolite e também é representante do conselho de idosos e adolescentes junto à Prefeitura.

Quase todas as atividades

Um dos passatempos preferidos das vovós superativas é viajar. Tanto que a maioria das agências de viagens preparam excursões especialmente para idosos. Os locais são geralmente cidades turísticas com atrações naturais como rios, cachoeiras e praias. A dona de casa Lúcia Salari Chincones, de 71 anos é assídua nesses passeios, já foi para Holambra, Águas de Santa Bárbara, Santos, Rio de Janeiro, Campos do Jordão e no fim do ano se prepara para ir para Santa Catarina. Avó de três netas com idades entre 23 e 12 anos, ela garante que tem uma vida normal de uma mulher de 30 anos. Faço tudo o que fazia quando tinha 30 anos, costuro, lavo, passo, deixo a minha casa arrumadinha. Faço tudo que fazia... ou quase tudo, porque não tenho mais marido, diz bem-humorada.

E viuvez não tirou dessas avós o gosto pela vida, nem pelo amor. Depois que ficou viúva, há 15 anos, Terezinha Martins da Costa teve dois longos namoros que duraram alguns anos. Superativa, a avó de 5 netos e 3 bisnetos (o mais novo de apenas um ano), é uma exímia bailarina segundo as colegas e adora dançar. Não faço exercício porque danço muito, diz. Ela ainda adora viajar e é fotógrafa amadora: nos encontros e bailes de terceira idade dos quais participa, tira fotos para depois vender. Com tantas atividades, os namoros acabaram não resistindo. Mandei os dois embora, afirma e logo dispara: os homens só querem mandar na gente.

Já com Alda Alves Almeida, de 90 anos, os namoros após a viuvez nem chegaram a engrenar. Fiquei viúva em 1967 e depois disso tive dois pretendentes, conta. Mas as paqueras não deram certo. Disse que iria pensar na proposta deles e nunca mais toquei no assunto, revela. Pelo jeito outro companheiro não fez falta. Alda é o que poderia se chamar de superavó: faz crochê, viaja, participa de um coral e freqüenta vários grupos de terceira idade, entre eles os do Sesc e da Associação dos Aposentados e não pára. Sou livre e independente, faço tudo o que quero e não dou satisfação do que faço para ninguém, só para o meu único filho e minha nora, que são maravilhosos, afirma a avó de dois netos.

Novo papel

O papel da avó nas famílias têm mudado com os anos, diz a psicóloga Maria Regina Corrêa Lopes Vanin, especializada em psicodrama e terapia de casais. Segundo a psicóloga, aquela avó que fica em casa cuidando dos filhos e dos netos depois de ficar viúva está quase em extinção. Uma das razões para essa mudança foi a saída da mulher para o mercado de trabalho e todos os avanços femininos que aconteceram no século XX. A mulher que uma vez saiu de casa para trabalhar e conquistou seu espaço, dificilmente volta para o lar para fazer esse papel de apenas cuidar dos familiares, diz a Vanin.

A psicóloga ressalta, porém, em um artigo de sua autoria intitulado Avós de Ontem e de Hoje, que apesar da mudança de paradigmas, as avós continuam desempenhando um papel fundamental no relacionamento familiar. Elas têm muito a dar em função da experiência acumulada na vida e, mais abertas e joviais que antigamente, podem ser modelos de referência para os netos, ao mesmo tempo em que preservam e transmitem as tradições e memórias da família, explica.

Na opinião da psicóloga, não há como definir se essas novas vovós estão certas ou erradas por continuarem a levar a vida atrás de seus interesses como faziam na juventude. O importante é não seguir rigidamente os padrões impostos e se guiar pela própria intuição, buscando o equilíbrio entre o dar e o receber no relacionamento com a família. A avó pode ser tanto a que faz um bolo gostoso, como a que disputa tranqüilamente uma partida de tênis com o neto, afirma.

Deixando a idade de lado

O grande segredo dessas supervovós parece ser mesmo deixar a idade de lado e não ficar se prendendo a convenções. A gente não pode ficar lamentando a idade, achando que é velha para fazer as coisas. Eu sempre digo que a gente envelhece por fora mas o espírito não envelhece. O meu tem só 35 ou 40 anos, declara Isabel da Silva Pinto. A dona de casa Alda Alves de Almeida concorda: A gente não pode ficar triste, chorar e encher a cabeça de pensamentos bobos, ensina. A gente tem é que viver a vida, completa.

Para vencer o tempo

Depois de acompanhar por sessenta anos um grupo de homens, médicos do Brigham and Womens Hospital de Boston, nos Estados Unidos terminaram o maior estudo já feito sobre o envelhecimento humano com uma conclusão até certo ponto animadora. A constatação dos especialistas é de que nunca é tarde demais para reparar os estragos feitos pelos piores inimigos da saúde: o fumo, o álcool e a vida sedentária. Entre outras conclusões os médicos americanos também concluíram que:

* O modo de vida até os 50 anos é o que determina a qualidade de vida após os 65.

* Quem desenvolve desde cedo hábitos como praticar exercícios regularmente, tem vida amorosa estável, cultiva amizades, evita o fumo, é bem-humorado e mantém uma alta atividade mental, pode ser dez vezes mais saudável e feliz na terceira idade do que quem não teve isso tudo.

* Evitar fumo e álcool é um fator determinante para uma boa saúde na idade madura.

* A maioria das pessoas que demonstraram facilidade para se relacionar socialmente, que eram bem-humoradas e otimistas, chegaram à terceira idade sem problemas psicológicos.

Resumindo: para se ter uma boa vida na terceira idade é preciso apagar o cigarro, beber com moderação, se alimentar bem, cuidar do peso, fazer exercícios físicos e manter a calma. Parece muita coisa, mas segundo o estudo, esse sacrifício significa alguns anos a mais no futuro - e com saúde.

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