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Comunidade improvisa para garantir lazer

Josefa Cunha
| Tempo de leitura: 7 min

Em diversos pontos da cidade, a comunidade se vira como pode para suprir a falta de equipamentos adequados à recreação. Vale de tudo: do basquete no asfalto à búrica no chão de terra batida.

Diz o dito popular que quem não tem cachorro, caça com gato. A expressão se encaixa perfeitamente na vida de crianças e adolescentes que residem em bairros periféricos desprovidos de equipamentos públicos de lazer ou que os têm em condições precárias. O que conta nesses locais é ter criatividade suficiente para fazer de velhas traves de futebol os pilares de sustentação da rede de vôlei, de pequenos tocos de madeira a trave do gol, do poste de energia elétrica o ponto ideal para a fixação da tabela de basquete.

Nos bairros mais pobres, notadamente as favelas, férias significam passar o dia inteiro brincando na rua, empinando pipa, jogando búrica ou pelada no chão de terra batida. Se a falta de infra-estrutura básica dá o tom sombrio a essas comunidades, a ausência de veículos garante a brincadeira tranqüila. Sem praças, quadras e parquinhos, esses pequenos moradores nos fazem crer que a magia da infância não sucumbe à miséria.

E por falar em crianças, são elas as responsáveis pela manutenção do que ainda resta da quadra poliesportiva da Vila Santa Terezinha. Oficialmente, o aparelho consta como estando em perfeito estado, mas a realidade é bem diferente. Contam os vizinhos que a quadra foi inaugurada junto com o bairro e que, na época, havia uma pessoa guardiã da chave. Era uma mulher que fazia diferença das pessoas. Só entrava na quadra quem ela conhecia e a gente ficava sempre de fora, contou um rapazinho, que hoje é um dos que mantêm o local.

Revoltados com a preferência dada pela antiga zeladora, muitos moradores passaram a invadir os alambrados que cercavam a quadra e que hoje não existem mais. A grama tomou conta dos arredores e toda a estrutura foi destruída - das redes às tabelas de basquete (a depredação, por sinal, é generalizada). O aparelho só não se deteriorou por completo em razão do cuidado dispensado por algumas crianças carentes de espaço para se divertir.

O grupo mirim não desistiu quando a Prefeitura lhe negou respaldo. Muito pelo contrário, foi à luta, contando com a ajuda dos vizinhos. Arrumaram sobras de tintas para pintar a quadra e argamassa para restaurar uma das tabelas de basquete - a outra tem um rombo tão grande que possivelmente não permitirá o conserto. As traves usadas no futebol foram adaptadas para servir como pilares de sustentação da rede de vôlei. Mensalmente, os meninos se revezam na capinação do terreno que circunda a quadra, hoje mantido limpo. Apesar do aspecto feio, a quadra é a pupila dos moradores do bairro, que a conservam e tratam como se fosse um presente novo e único.

Na Vila Nova Esperança, crianças e adolescentes também têm que improvisar para garantir o lazer no período de férias e dias normais. O estádio distrital do bairro está fechado temporariamente, assim como a quadra da Escola Estadual Irmã Arminda Sbríssia e o Centro de Atendimento Integral à Criança (Caic), que nas férias fecham os portões. A Nova Esperança é carente de áreas públicas para lazer e recreação, pontuou Adriano Queiroz, presidente da Associação de Moradores do bairro.

Segundo ele, a entidade vem pleiteando recursos do Programa de Desenvolvimento Comunitário (Prodec) para ampliar a oferta, mas um impasse com a Cohab estaria impedindo a liberação da verba, estimada em quase R$ 70 mil. A Cohab quer cobrar R$ 7 mil pelo projeto, mas nós conseguimos a planta e a pesquisa (de opinião para definir onde aplicar o recurso) de graça. Não achamos justo ter que pagar por isso, salientou Queiroz. Vale registrar que, segundo pesquisa feita pela Unesp, a população da Nova Esperança quer, como primeira opção, a reforma do bosque comunitário. A construção de um Centro Comunitário e de uma praça figuram em segundo e terceiro lugar, respectivamente.

Enquanto o bosque não ganha a estrutura para a prática esportiva, os moradores apelam para a criatividade. É o caso de um grupo que se junta nos finais de tarde e fins-de-semana para jogar basquete próximo à quadra 2 da rua Lino Quatrina. A tabela onde se fixa a cesta foi instalada em um poste de energia elétrica. A animação é tanta que os jogadores acabam esquecendo o chão de asfalto e relevando os tempos forçados pelo trânsito de veículos.

Portões fechados

A exemplo do Centro de Atendimento Integrado à Criança (Caic), vários outros órgãos providos de quadras e estruturas de lazer mantêm-se fechados durante as férias. A situação chega a ser um contra-senso diante da falta de aparelhos públicos capazes de atender a população infanto-juvenil durante o recesso escolar.

O Estado, segundo informações da Direção Regional de Ensino, adotou a política de abertura em relação as suas unidades escolares por entender que a escola que abre a quadra para a comunidade praticar esportes proporciona grandes mudanças. Em troca do aparelho, a comunidade passa a cuidar da escola e a se organizar, saindo das ruas, das drogas e da ociosidade, sublinhou Jair Sanches Vieira, dirigente regional de ensino de Bauru.

Segundo ele, todas as escolas, independente de terem as quadras cobertas ou não, estão à disposição da comunidade via zeladoria ou plantão de atendimento. O ideal seria que os alunos das universidades, ao invés de cumprirem somente estágios de observação, passassem, sob orientação dos professores, a prestar serviços. Poderiam, por exemplo, programar atividades para os finais de semana durante o recesso escolar, sugeriu.

As escolas municipais também estariam abertas à população, segundo informou a Assessoria de Imprensa da Prefeitura. Através de requerimento, a comunidade pode utilizar os espaços para eventos coletivos ou não. Os portões só não ficariam abertos o tempo todo para evitar depredações e a presença de pichadores.

Lazer cultural

A programação da Secretaria Municipal de Cultura para as férias de julho deixa a desejar no que se refere a opções e extensão de atendimento. Na verdade, pouco foi além dos programas permanentes. As bibliotecas, por exemplo, continuam com horário normal de atendimento, lembrando que a freqüência nesses locais é um tanto quanto constante, ou seja, o período de férias exerce pouca influência na quantidade de visitantes.

De diferente mesmo, apenas três atividades: Hora do Conto, oferecida pela Biblioteca Central às quartas-feiras, com exigência de pré-agendamento para participação; Hora da Poesia, aulas de reforço em Matemática e Jogos de Matemática, todos às sextas-feiras na Biblioteca Ramal do Jardim Redentor, também com agendamento, e o curso de Pintura com guache, iniciado na última quarta-feira no Núcleo de Difusão Cultural João Correia, na Biblioteca Rama da Vila Tecnológica.

Apesar da tímida propaganda, esta última atividade atraiu 15 crianças em seu primeiro dia. O incrível é que apenas quatro delas foram incentivadas a participar pelos pais. Os demais descobriram a novidade quando brincavam na praça situada defronte à biblioteca. A gente não tem o que fazer aqui, a não ser ficar na praça, disse uma das participantes voluntárias.

O universitário Miguel Luiz Ambrizzi, estudante de Artes na Unesp, era quem estava fazendo as vezes de professor de pintura. Segundo disse, o projeto do curso de férias foi idealizado por ele próprio, com apoio da Secretaria de Cultura, que lhe deu o local e a permissão para desenvolver qualquer atividade cultural. Estava tudo empoeirado e tivemos que lavar. Optei pelo guache porque aqui já havia material para isso. Outra atividade dependeria de verba e tempo. O legal é que eles estão adorando e, mesmo que livres para participar, pedem até para sair beber água. Estou achando ótimo. Outros projetos deveriam ser desenvolvidos aqui, porque a comunidade é carente e a estrutura subaproveitada, observou.

Próximo dali, a reportagem do JC nos Bairros encontrou um grupo de adolescentes soltando pipa e jogando bola numa quadra precária. Metros adiante um grande terreno que deveria abrigar uma quadra poliesportiva. Na placa, o escrito Centro Esportivo e Área de Lazer do Núcleo Bauru XXII nem de longe condiz com a realidade.

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