Admite-se que a maioria das populações das oito nações européias, reconhecidamente ricas, cujos presidentes e ministros preenchem suas libertas cabecinhas com a idéia da globalização econômica e buscam fórmulas para sua imediata aplicação em benefício de países pobres, esteja ouvindo e falando do badalado sistema, mas ignora completamente o que possa vir a ser ele na devida prática. E pergunta, ansiosamente, se os mentores das indigitadas nações estariam conscientes de que, simplesmente perdoando as dívidas financeiras da plebe, viriam a propiciar ao mesmo tempo, de forma categórica, a plena implantação da paz e da tranqüilidade dos milhões e milhões de supostos beneficiários do grande avanço. Nutrem as citadas comunidades cristalinas dúvidas de que isso possa vir a acontecer efetivamente, porquanto consideram elas que a conquista da paz, tão almejada, não é obstaculizada unicamente pelos entulhos da economia, pois que invade, em estilo resoluto, a amplíssima esfera do social, à qual se insere todo um conglomerado de problemas, que obstaculizam arrogantemente as manifestações do entendimento humano que deveriam sobrepairar em todas as decisões e contatos das sociedades. Daí o rancor que domina os seres da maioria das classes, simbolizado por greves, protestos e violências de todos os naipes, muitos deles por sinal justíssimos, em função do que vivem homens e mulheres por aí como que escravos da intolerância e do desamor, principalmente nas cidades grandes, em cujas ruas se cruzam diariamente mas não se entreolham nem cumprimentam e nunca dão oportunidade para um início de amizade. Convence-se, então, a partir do cenário, que não poderia o grupo dos oito poderosos pensar unicamente na globalização econômica, mas voltar-se também para uma globalização plena da solidariedade, a fim de que todas as pessoas desarmem os espíritos e as prevenções e sorriam, fraternalmente, onde quer que venham a se encontrar ou defrontar, seja em meio ao ruidoso burburinho das vias públicas ou na informalidade dos clubes culturais e recreativos, seja ainda no recesso do trabalho profissional diário e, mesmo, no silêncio do recinto doméstico, no qual - todos o sabem - há maridos, esposas e filhos que não se falam nem se entreolham, não se abrem em beijos e abraços, não comentam as alegrias de suas vitórias e as tristezas de seus dissabores e - pasmem - não choram nem quando um deles parte para o infinito. É de se lembrar a propósito que há pouco, numa audiência no Vaticano, o Papa João Paulo II, penalizado com os catastróficos conflitos que há tempos infelicitam países europeus, ressaltou ser flagrante a necessidade de que a humanidade contemporânea, que tanto sonha com a eclosão da concórdia, cada vez mais distante de seus olhos, possa começar a ver, agora, à sombra da provável globalização da economia, ardorosamente defendida pelos poderosos do mundo, um belo e suave horizonte se abrindo também no sentido da solidariedade, que todos desejam e exigem. Oxalá nenhum povo tivesse dívidas, no campo da amizade, para com todos os outros. É a douta opinião do santo Pontífice e, com a deferência dele, a do jornalista também!
(*) O autor, N. Serra, é o jornalista responsável do JC e delegado regional da Associação Paulista de Imprensa e da Ordem dos Velhos Jornalistas do Estado.