Levantamento da CPFL mostra consumidores que terão problemas com o racionamento. Porém, muitos conseguiram bônus.
Um levantamento concluído ontem pela Companhia Paulista de Força e Luz (CPFL) indica que 58.447 consumidores atendidos pela empresa não conseguiram alcançar a meta estipulada para o período de racionamento de energia elétrica, ultrapassaram o consumo mensal de 200 kWh e terão que pagar sobretaxa. Esse número ainda irá aumentar, porque o ciclo de faturamento da CPFL encerra-se somente no final de cada mês.
De acordo com a assessoria de imprensa da companhia, os clientes que pagarão a sobretaxa são aqueles que ultrapassaram o consumo de 200 kWh - com multa de 50% - ou de 500 kWh - multa de 200%, independentemente da meta fixada. Quem ultrapassou a meta de consumo mas não excedeu a 200 kWh não paga sobretaxa, mas estará sujeito ao corte de eletricidade na reincidência. Ou seja, o mês de julho é o primeiro válido para as contas do racionamento. Isso significa que o consumidor que tiver ultrapassado a sua meta neste mês e também exceder o consumo em agosto, já estará sujeito à suspensão do fornecimento de energia em casa.
Por outro lado, o número de pessoas que serão beneficiadas com o bônus já nas contas deste mês é bem maior: 430.419, segundo dados fornecidos pela assessoria de imprensa da CPFL. Têm direito ao bônus os clientes cujo consumo energético for inferior ou igual a 100 kWh, conforme determinação da Câmara de Gestão da Crise de Energia (GCE). O bônus será de R$ 2,00 para cada R$ 1,00 economizado abaixo da meta.
A consumidora Maria Aparecida de Almeida Fontes conta que ela e o marido ultrapassaram a meta de consumo estipulada e não sabem mais o que fazer para diminuir o consumo e evitar o corte de energia. Com uma meta de 147 kWh, o consumo neste mês ficou em 172 kWh. Não temos como diminuir ainda mais o consumo de energia em casa porque já cortamos tudo o que podíamos. O microondas, o vídeo-cassete e o rádio-relógio estão desligados, só uso o ferro de passar roupa uma vez por mês, diminuímos o tempo do banho, a televisão só fica ligada durante duas horas por dia e não ligamos aos domingos e estamos deixando luz acesa somente em um cômodo da casa durante a noite. Não sei mais o que fazer, conta.
Maria Aparecida diz que acabou sendo prejudicada pelo fato de já economizar energia desde o ano passado. Em função dos aumentos da tarifa, desde o ano passado nós já economizamos energia. Em casa, apenas na cozinha e em um banheiro a lâmpada é incandescente. Em todos os outros cômodos, há mais de um ano nós trocamos por lâmpadas fluorescentes. Então, o fato de já economizarmos há bastante tempo acabou, ironicamente, nos prejudicando, porque a nossa meta de consumo foi baixa, observa.
Metas prejudiciais
Marise Suzuki, que mora em uma casa com três filhos, ultrapassou a meta de consumo, neste mês, em 70 kWh. Segundo conta, durante maio, junho e julho do ano passado, meses nos quais foi baseada a conta para definir a meta de consumo para o período de racionamento, ela estava trabalhando em São Paulo e só vinha a Bauru nos finais de semana. No ano passado eu estava trabalhando em São Paulo, então, a minha média foi baseada num consumo com uma pessoa a menos dentro de casa. O resultado é que agora, mesmo cortando tudo o que eu podia, não estamos conseguindo ficar na meta, que no meu caso foi prejudicial, diz.
Marise conta que o tempo de banho foi diminuído para todos, a televisão só está sendo ligada à noite, os filhos estão proibidos de assistir filmes no vídeo-cassete, o microondas foi desligado e menos luzes estão ficando acesas. Mesmo assim, a meta que é de 160 kWh foi ultrapassada e o consumo de julho ficou em 230 kWh.
A professora Margaret Leme de Macedo conseguiu ter um consumo, neste mês, que ficou em apenas 1 kWh abaixo da meta, que é de 138 kWh. Em função disso, tomou a decisão de instalar um aquecedor a gás no banheiro da sua casa para diminuir o consumo do chuveiro. Porém, para isso teve que desembolsar R$ 2 mil, porque a instalação desse equipamento exige, também, a troca do encanamento por tubos de cobre.
Em junho, eu ultrapassei a minha meta em 19 kWh. Neste mês, tive um consumo de 137 kWh, sendo que a minha meta é de 138 kWh. Ou seja, tenho que continuar economizando tudo o que puder. Então, com medo do corte de energia resolvi instalar um aquecedor a gás em casa, só que para isso já gastei R$ 2 mil. Acho que o governo é que devia me pagar por esse gasto, já que todo esse problema não foi causado pela população, observa.
Margaret diz que está tão preocupada com a sua situação que, antes de instalar o aquecedor a gás, estava tomando banho de seis minutos, gerenciado por um despertador. Além disso, o microondas foi desligado, o uso da televisão foi reduzido e as luzes estão ficando apagadas. Eu já economizava antes. Então, estou numa situação difícil. Estou abrindo mão de todos os confortos que eu tinha em casa, fruto do meu trabalho. Nem secador de cabelos estou usando mais, enquanto as pessoas que desperdiçavam energia estão sendo beneficiadas pela meta de consumo, reclama a consumidora.