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Luz, cana e ação

Ricardo Polettini
| Tempo de leitura: 3 min

Jaú assiste amanhã ao premiado documentário A Vida em Cana, de Jorge Wolney Atalla Júnior; trabalhadores-atores se assistem, pela primeira vez diante de uma tela.

Amanhã, pelo menos 200 pessoas que vivem em Jaú e redondezas vivenciarão sensações experimentadas por poucos. São trabalhadores rurais que verão pela primeira vez a projeção de um filme.

Tudo bem, até aí, muita gente não conhece um cinema. Mas quem vai assistir a um filme pela primeira vez e ainda por cima ver a si próprio como ator principal? Aí a figura muda de cenário.

Trata-se do documentário A Vida em Cana, produção de estréia do jovem cineasta Jorge Wolney Atalla Júnior, 32, que terá exibição aberta ao público amanhã, às 20 horas, no ginásio Dr. Neves, em Jaú.

Com curto tempo de vida - foi finalizado este ano - já carrega consigo uma lista de prêmios importantes, como a Margarida de Prata de melhor documentário brasileiro e ainda premiações de melhor filme, diretor e montagem na categoria em outros festivais. Já na primeira exibição, no New York International Independent Film Festival, sagrou-se com melhor fotografia.

Câmera na mão

A família de Wolney é proprietária da Usina Central Paulista, que emprega trabalhadores de toda a região. A idéia de registrar o cotidiano dessas pessoas surgiu quando o diretor voltou ao Brasil, após concluir um curso de cinema na New York Film Academy.

Entre os meses de maio a novembro de 1999 - época da colheita de cana no Brasil - ele passou todos os dias registrando imagens e depoimentos de trabalhadores nos canaviais. Sozinho, com a câmera na mão e mochila nas costas, ele procurou colher material da forma mais natural possível, sem interferir no cotidiano dos cortadores.

Sendo todos funcionários da usina da família, Wolney só contou a eles quem era depois de acabadas as filmagens. Foi até legal. Quando contei, disseram que gostaram de ter o patrão convivendo com eles, lembra.

Para começar demorou, foi mais de um mês até conseguir a confiança dos trabalhadores. Depois de fazer amizade com eles, Wolney procurava tomar imagens, às vezes, sem ser notado, com a câmera debaixo do braço, conversando normalmente na hora do almoço ou do trabalho suado.

O resultado parece ter agradado público e crítica. Em Los Angels, onde o filme estréia comercialmente no dia 24 de agosto, disseram que não parece um documentário, mas um filme, um drama com história, começo meio e fim, explica.

A edição final, convertida de digital para película, mostra uma realidade dura, mas poética. Me perguntaram por que não mostrei o lado ruim dos trabalhadores. Eu respondi que aquilo foi exatamente o que eu vi naqueles meses. Se tivesse visto outras coisas, também estaria no filme, retruca.

Wolney negocia agora a exibição do filme em cidades de grande produção canavieira, como Ribeirão Preto, Piracicaba, Recife e, possivelmente, Bauru. Em circuito comercial brasileiro, A Vida em Cana só deve chegar no segundo semestre do ano que vem.

Serviço

Exibição do documentário A Vida em Cana, de Jorge Wolney Atalla Júnior, amanhã, 20h, no ginásio Dr. Neves, em Jaú. Grátis.

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